15 de janeiro, 2015 - Belém

O Papa e os movimentos populares - parte 3


Continuo com o pronunciamento do Papa Francisco da semana passada sobre os movimentos populares: “Terceiro, Trabalho. Não existe pior pobreza material — faço questão de o frisar — da que não permite que se ganhe o pão e priva da dignidade do trabalho. O desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos laborais não são inevitáveis, são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema económico que põe os benefícios acima do homem, se o benefício é económico, acima da humanidade ou do homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano como um bem de consumo, que se pode usar e depois deitar fora.

Hoje, ao fenómeno da exploração e da opressão soma-se uma nova dimensão, um aspecto gráfico e duro da injustiça social; os que não se podem integrar, os excluídos são descartados, «a demasia». Esta é a cultura do descarte, e sobre este ponto gostaria de acrescentar algo que não tenho aqui escrito, mas que me veio agora à mente. Isto acontece quando no centro de um sistema económico está o deus dinheiro e não o homem, a pessoa humana. Sim, no centro de cada sistema social ou económico deve estar a pessoa, imagem de Deus, criada para que seja o denominador do universo. Quando a pessoa é deslocada e chega o deus dinheiro dá-se esta inversão de valores.

E para o ilustrar recordo aqui um ensinamento do ano 1200. Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da torre de Babel e contava como, para construir aquela torre, era preciso fazer um grande esforço, era necessário fabricar tijolos, e para fabricar tijolos era preciso fazer lama, procurar a palha, e misturar a lama com a palha, depois parti-la em quadrados e pô-la a secar, depois cosê-la, e quando os tijolos estavam prontos e frios, carregá-los para construir a torre. Se um tijolo caía — tinha custado tanto com todo aquele trabalho — era quase uma tragédia nacional. Quem o deixasse cair era punido ou despedido, e não sei o que mais lhe faziam, mas se caía um operário nada acontecia. Acontece isto quando a pessoa está ao serviço do deus dinheiro; e já o narrava um rabino no ano 1200, explicando estas coisas horríveis.

No respeitante ao descarte devemos estar também um pouco atentos a quanto acontece na nossa sociedade. Estou a repetir coisas que disse e que se encontram naEvangelii gaudium. Hoje descartam-se crianças porque a taxa de natalidade em muitos países da terra diminuiu ou descartam-se as crianças por falta de alimentos ou porque são mortas antes de nascer: descarte de crianças.

Descartam-se os idosos porque não servem, não produzem; nem crianças nem idosos produzem, então são abandonados lentamente com sistemas mais ou menos sofisticados, e agora, dado que nesta crise é preciso recuperar um certo equilíbrio, assiste-se a um terceiro descarte muito doloroso: o descarte dos jovens. Milhões de jovens — não digo o número porque não o conheço exatamente e o que li me parece um pouco exagerado — milhões de jovens são descartados do trabalho, desempregados.

Nos países europeus, e estas sim, são estatísticas muito claras, aqui na Itália, os jovens desempregados são um pouco mais de quarenta por cento; sabeis o que significa quarenta por cento de jovens, uma geração inteira, anular toda uma geração para manter o equilíbrio. Outro país europeu está a superar cinquenta por cento, e nesse mesmo país de cinquenta por cento, no sul é sessenta por cento. São números claros, ou seja do descarte. Descarte de crianças, descarte de idosos, que não produzem, e temos que sacrificar uma geração de jovens, descarte de jovens, para poder manter e reequilibrar um sistema no qual no centro está o deus dinheiro e não a pessoa humana.

Não obstante esta cultura do descarte, esta cultura da demasia, muitos de vós, trabalhadores excluídos, em excesso para este sistema, inventastes o vosso trabalho com tudo o que parecia não poder ser mais usado, mas vós, com a vossa habilidade artesanal, que Deus vos deu, com a vossa busca, com a vossa solidariedade, com o vosso trabalho comunitário, com a vossa economia popular, conseguistes e estais a conseguir... E, deixai que vos diga, isto, além de ser trabalho, é poesia! Obrigado.

Já agora, cada trabalhador, quer faça parte quer não do sistema formal do trabalho assalariado, tem direito a uma remuneração digna, à segurança social e a uma cobertura para a aposentadoria. Aqui estãocartoneros, recicladores, vendedores ambulantes, costureiros, artesãos, pescadores, camponeses, pedreiros, mineiros, operários de empresas recuperadas, membros de cooperativas de todos os tipos e pessoas com as profissões mais comuns, que são excluídas dos direitos dos trabalhadores, aos quais é negada a possibilidade de ter um sindicato, que não têm uma remuneração adequada e estável. Hoje desejo unir a minha voz à deles e acompanhá-los na luta.

Falastes neste encontro também de Paz e Ecologia. É lógico: não pode haver terra, não pode haver casa, não pode haver trabalho se não tivermos paz e se destruirmos o planeta. São temas tão importantes que os povos e as suas organizações de base não podem deixar de enfrentar. Não podem permanecer só nas mãos dos dirigentes políticos. Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade, todos devemos levantar a voz em defesa destes dois dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã e mãe terra, como lhe chamava são Francisco de Assis.” (papa Francisco) 

Continua na próxima semana.