06 de novembro, 2014 - Belém

O celular e as pessoas


A era do aparelho de celular iniciou exatamente no dia 3 de abril de 1973. Mais de 41 anos já se passaram. Naquela ocasião, Martin Cooper, da Motorola, chamou um colega e rival, Joe Engel, da Bell Laboratories AT&T, com um celular. Foi o primeiro pontapé da nova era dos celulares. A comercialização só aconteceu no ano 1983, quando o aparelho chegou a pesar um quilo e a bateria aguentava meia hora de uso. Pesos de outros tempos na concepção dos dias de hoje. Porém, isso marcou definitivamente a história da nossa sociedade com a nova telefonia. As pessoas foram conquistadas por essa nova tecnologia tanto como serviço mais eficiente quanto como status social. 

Os primeiros usuários da telefonia móvel ostentavam seus aparelhos com orgulho e vaidade. Sentiam-se destacadas das outras pessoas, dando a impressão de serem perfeitos atores em ação. Com o passar dos anos, a tecnologia se aperfeiçoou e esses telefones móveis foram redimensionados no tamanho, ampliados em serviços e acessíveis a todos. Ter um desses pequenos telefones parece promoção humana e segurança. Lembro-me, além do mais, com o passar de todos esses anos, como as pessoas se comportavam naqueles primeiros tempos e como se comportam agora. As mudanças não são poucas. As pessoas sentem cada vez mais a necessidade cotidiana de acessar a um montão de informações, na maioria das vezes de maneira rápida. 

Assim sendo, delineia-se um ser humano constantemente informado e com uma visão do mundo muito mais aberta que no passado. Atenção, porém, esse conhecimento dotado sempre mais com capacidades resumidas favorece uma comunicação mais simbólica, sintética e direta. Diminui o interesse para o aprofundamento das notícias e compartilha digital das mesmas. Esse instrumento simples e prático é quem determina o transcorrer do dia. É a ‘alma’, poderia dizer em termos religiosos, do ser humano, porque está sempre grudado nele e sempre pronto para qualquer ação que precisar. É com ele que compartilham a maioria das experiências através das palavras, emoções, sentimentos e também imagens, sim, porque esses aparelhinhos têm a função, entre tantas, também de maquinas fotográficas. 

Tem gente que quando acorda a primeira coisa que procura é o celular; outras, quando saem de casa, sempre verificam se o celular está com eles. Parece, se me permite essa comparação, que esse meio é como o pão de cada dia. É indispensável, aliás, quando falta é algo que deixa um vazio no agir cotidiano, algo como fosse vulnerável. O celular se tornou parte integrante da vida do ser humano. A minha preocupação perante essa maneira de agir é de confundir, de fato, qual é o papel desse meio. O celular é sempre um meio, isto é, que está no meio entre quem quer ligar pra alguém e quem recebe essa ligação. 

Em poucas palavras, é um serviço e nada mais. Parece, no entanto, que vão além disso, tanto da condicionar as pessoas como já sublinhei acima. No final são eles que mandam e não nós que mandamos neles. Esses pequenos instrumentos se tornaram agentes que conectam e que separam, que ligam e ao mesmo tempo dividem. Os contatos com os outros são determinados pelos celulares. Com isso, é possível substituir a ‘comunicação real’ dando ao instrumento técnico todo esse poder de substituir a realidade, alimentando a equação ‘comunicação celular = comunicação real’.  Isto no passado nem se podia imaginar.  O uso excessivo do celular, que defino como celularmania, leva muitas vezes a cumprir junto com outras atividades e, consequentemente, dando problemas psicofísicos de saúde. 

Essa dependência, às vezes, leva a um uso despropositado do celular e prioriza, assim, uma satisfação de ordem afetivo-relacional. E se por acaso o celular não funcionar devido ao fim da bateria ou por outros motivos técnicos as pessoas entram em pânico ou ânsia. O uso do celular também serve para evitar a solidão e combater fobias especificas. Há pessoas que têm problemas de autoestima, então usam o celular como instrumento para enfrentar tal problema. O celular em muitos casos pode até servir comportamentos de dependência afetiva quando se fazem, por exemplo, ligações sem fim. Finalizando, o celular não é um simples meio à disposição do ser humano, mas o condicionou  nos seus hábitos de vida.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net