11 de setembro, 2014 - Belém

Nossa vida em plenitude


Tenho a percepção de que as pessoas vivem a vida com imediatismo, não em sua totalidade, apenas marcada por momentos presentes: tempo de casar, tempo de se divertir, tempo do trabalho, tempo de doença, tempo de juventude, tempo de velhice e assim por diante. Dificilmente, toma-se consciência de enfrentar a vida e também a morte como um conjunto da própria vida. Além do mais, quando as pessoas pensam sobre a própria vida como destino à eternidade? Nesse sentido, o ser humano perde sempre de vista a totalidade da sua vida e ensaia exclusivamente a particularidade dela. Por isso quem não quer ou não consegue fazer uma experiência de Deus, praticamente reduz o sentido da sua própria humanidade. 

Uma verdadeira humanidade se dá na sua totalidade, que compreende todas as fases da vida, desde a sua concepção até a vida depois da morte. Esse tipo de pensamento nos ajuda a compreender melhor a nossa vida, sobretudo nas fases mais delicadas. Veja, por exemplo, um momento trágico da vida, como dar uma resposta exaustiva? Como encara-la? Se a gente a enfrentar como um evento do momento, isolado, torna-se muito difícil compreende-la, e o desespero toma conta; mas se tentar fazer tudo isso entrar na totalidade da própria vida é mais fácil discernir. Na verdade, quantas situações complicadas e que se deterioraram mais ainda com o tempo! 

Até grandes conflitos são resultados dessa falta de totalidade da concepção da vida. Creio que o ser humano compreenda o sentido da vida e da própria morte, olhando-as como totalidade. O mundo não nos oferece essa oportunidade. Está demais concentrado na lógica do momento, da oportunidade e da ação imediata. Dificilmente o mundo ajuda a contemplar a vida além da própria materialidade e sua especulação relativa. De fato, não é capaz e não pode fazer isso porque lhe falta o conhecimento ou não consegue tal dimensão. Nós, cristãos, aprendemos, com Jesus, a encarar a nossa vida e a nossa morte como totalidade e como uma missão para se cumprir, testemunho de abandono nas mãos de Deus.

Assim sendo, temos que nos esforçar em viver superando a nossa concepção fragmentária da vida, por tempos e espaços limitados, dando vez na sua totalidade. Certamente, tudo isso não é sempre possível cumprir, mas precisa de tanto em tanto realiza-lo. Na medida em que conseguirmos atuar nisso nos tornaremos sujeitos de nós mesmos; somos pessoas que se aceitam das mãos de Deus e se doam de novo a Deus. Então, fica claro que a experiência passa também por essa maneira de enfrentar a vida na sua totalidade. Isto nos conduz, sob o ponto de vista antropológico, que o ser humano encontra a si mesmo na medida em que se supera, que está aberto ao infinito. 

O ser humano se torna tal, portanto, abrindo-se e não se fechando. Não experimentando essa experiência da totalidade, vive a passividade da vida como acidentes, algo que não deveria ser, como frustrações, inclusive causa de desespero, de falta de coragem. Assim sendo, é na totalidade da vida que se enxerga a história da vida com toda a sua altura e profundidade. Portanto, o ser humano não fecha os olhos perante as experiências dolorosas, sofridas, mas pode se alegrar, depois, por ter conseguido a suportar tudo isso. A dimensão contemplativa da vida do ser humano pode ajudar a alcançar essa visão da totalidade, evitando a sua fragmentariedade, qual grande ameaça da existência. 

Quero, nesse momento, transcrever um testemunho do finado cardeal Martini, quando foi bispo de Milão, e que nos pode ajudar a viver em Belém do Pará: “A vocês de boa vontade de Milão, sobrecarregados de fadigas cotidianas e das múltiplas preocupações, gostaria de dizer-vos que vos admiro pelo empenho estressante para construir a cidade, pela defesa e a difusão do bem-estar, pelo esforço de manter a ordem contra as ameaças sempre incumbente da desordem e da violência. Mas gostaria também lembrar que a ânsia da vida não é a lei suprema, não é uma condenação inevitável. Essa é vencida por um sentido profundo do ser do homem, por um retorno às raízes da existência. Este sentido do ser, este retorno às raízes, nos permitem de olhar com mais firmeza e serenidade aos gravíssimos problemas que a defesa e a promoção da convivência civil nos propõem cada dia (La dimensione contemplativa della vita-1981).” Essas raízes são a nossa dependência a Deus.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net