14 de janeiro, 2016 - Belém

Justiça e Paz


Como ambicionar a justiça sem a paz? Como ambicionar a paz sem a justiça? Perguntas legítimas que se justificam reciprocamente. De fato, estamos assistindo a esse clamor por uma e por outra, de maneira desesperada, pela sociedade em geral. Para dar uma resposta exaustiva a respeito, não podemos desassociar as duas questões. Uma exige a outra. As duas andam juntas. E para entender melhor, eu quero me deixar iluminar pela Sagrada Escritura, Palavra de Vida e de Sabedoria. Encontrei o Salmo 85 (84) que diz o seguinte:

“Fostes propício, Senhor, à vossa terra; restabelecestes a sorte de Jacó. A iniquidade de vosso povo perdoastes, foram por vós cobertos seus pecados. Aplacastes toda a vossa cólera, refreastes o furor de vossa ira. Restaurai-nos, ó Deus, nosso Salvador, ponde termo à indignação que tínheis contra nós. Acaso será eterna contra nós a vossa cólera? Estendereis vossa ira sobre todas as gerações? Não nos restituireis a vida, para que vosso povo se rejubile em vós? Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia, e dai-nos a vossa salvação. Escutarei o que diz o Senhor Deus, porque ele diz palavras de paz ao seu povo, para seus fiéis, e àqueles cujos corações se voltam para ele. Sim, sua salvação está bem perto dos que O temem, de sorte que sua glória retornará à nossa terra. A bondade e a fidelidade outra vez se irão unir, a justiça e a paz de novo se darão as mãos. A verdade brotará da terra, e a justiça olhará do alto do céu. Enfim, o Senhor nos dará seus benefícios, e nossa terra produzirá seu fruto. A justiça caminhará diante dele, e a felicidade lhe seguirá os passos.”

O que nos revela esse Salmo? A justiça e a paz podem se encontrar, andar juntas. O salmista diz que a escravidão do povo judeu, o exilio, e também o afastamento de Deus, são o seu pecado, são na prática uma separação entre justiça e paz. Na verdade, existe uma ligação entre o sofrimento humano, a falta de liberdade, do pecado que comete e a ausência dessas duas realidades. Por isso, não pode se separar a justiça da paz e a paz da justiça. Não existe salvação para o ser humano se não tiver paz e justiça. Porém, essa verdade se defronta com a nossa realidade que é incapaz de responder a esse apelo. 

Parece que as condutas das pessoas, desde as relações familiares, sociais, políticas e religiosas, se divertem em rejeitar essa necessidade. Segundo o Salmo, ‘justiça e paz’ são qualidades de Deus e as suas presenças no meio da humanidade, no pequeno planeta terra, permitem a história da humanidade de viver diferentemente. Portanto, é loucura rejeitar esses dons de Deus e pensar que isso possa ser pura realização humana. Essas realidades podem ser experimentadas nas suas plenitudes, caracterizando-as na sua maior força humanitária somente se são reconhecidas como dom de Deus ao ser humano e não produtos dele. 

A consequência da justiça é a paz: essas dependem de maneira evidente da ação de Deus. Porém, Isaias nos diz também que a paz e a justiça estão ligadas na observância dos mandamentos de Deus: “Ah! Se tivesses sido atento aos meus mandamentos! Teu bem-estar assemelhar-se-ia a um rio, e tua felicidade às ondas do mar.” Que quer dizer isso? Que a realização da justiça e da paz é reconhecida como dom de Deus, mas é também um compromisso do fiel em acolher esses dons. 

Aqui está a nossa efetiva participação: é escutar, atentamente, a Palavra de Deus e executar as suas ordens que permitem de fazer encontrar, no cotidiano da nossa vida, a paz e a justiça. Paz e justiça de mãos dadas. Aquilo que parece impossível aos seres humanos se torna possível na medida em que eles sejam capazes de retornar a Deus, de se deixar possuir por Ele para se transformarem em novas criaturas. Por isso, o nosso querido papa Francisco nos convida a viver a misericórdia como sinal de vida nova qual resgate da nova humanidade. 

Essa nova realidade, fruto da paz e da justiça, permite também de viver numa sociedade em que o trabalho das pessoas manifesta todas as potencialidades positivas. Isto, inclusive, não somente na relação entre os seres humanos, mas também na relação com a mesma natureza. Assim sendo, uma justiça e paz que não se limitam à humanidade em si, mas que envolvem consequentemente toda a natureza. Além do mais, é importante reconhecer que a paz e a justiça têm os seus direitos, mas é bom reconhecer também de viver numa perspectiva de reconciliação tudo isso. “Deixar-se reconciliar com Deus” não quer dizer renunciar à própria identidade e autonomia, mas redescobri-la a um nível mais profundo; deixar-se reconciliar com os outros dá a possibilidade de vida, liberdade e paz.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net