05 de fevereiro, 2015 - Belém

Fotografar com celular pode ser negativo


O celular tornou-se o aparelho inseparável das pessoas. Curioso é ver como muitos o ostentam para fazer fotografias. Há todo momento, em qualquer lugar, sempre há motivos para usar o equipamento, capturar imagens e depois exibi-las. Realmente é uma maneira de compartilhar eventos e emoções da vida humana. Na prática, é como dizer que não se pode esquecer momentos importantes da própria vida. No entanto, essa vontade persistente de imortalizar os fatos da vida pode ter um efeito negativo sobre a memória. Isto não fui eu que inventei, mas é o que revela uma pesquisa chefiada pela doutora MaryanneGarry, docente de psicologia da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia. 

Os pesquisadores descobriram que o uso desses aparelhos para fotografar ou documentar um vídeo está estragando as nossas lembranças, não permitindo viver com serenidade o presente. Por que isso? Pelo fato de que as pessoas se preocupam mais em bater uma foto bonita e única de um evento importante da vida, como casamento, missa de 15 anos, aniversário, festa ou viagem, do que viver o momento presente. Impede a pessoa de participar ativamente dos momentos prazerosos da vida. Portanto, a tensão e o estresse para realizar uma bonita imagem ou vídeo levam a não gravar direito no nosso cérebro aquilo que há de especial em cada instante do cotidiano. Quando o registro é de um autorretratado, pior ainda. 

No final, a grande lição de tudo isso é que quanto mais se faz fotografia menos se vive o evento ou aquele momento da vida tão especial. Parece que se cria como uma parede invisível que impede de viver intensamente essas etapas da vida. Faz tempo que a doutora Garry se ocupa, cientificamente, dessa relação entre mídia digital e cérebro; e agora concentrou sua pesquisa sobre os efeitos da fotografia na lembrança da infância. De fato, ela sintetizou tudo isso com essas palavras: “As pessoas fazem mil fotos e depois as baixam em algum lugar e na realidade não têm depois tempo para vê-las bastante porque é demais complicado etiqueta-las e organiza-las. Isto me parece uma perda.”

Temos que admitir que nós gostamos de lembrar, relembrar os momentos preciosos, por exemplo, dos aniversários, das férias, casamentos por meio de fotografias. Mas a pesquisadora Garry ressalta que a excessiva preocupação em tirar as fotos pode nos fazer esquecer tudo tão rápido. É diferente do passado quando as fotos impressas em um álbum podiam depois ser folheadas de tanto em tanto a cada momento que se desejasse. Hoje em dia, as muitas imagens digitais arquivadas no computador, no paint driver ou CD, parecem que ‘desaparecem’. Nessa era do digital, do virtual, evaporizaram os álbum impressos e com eles as nossas lembranças. 

Outro estudo precedente a esse, publicado no ‘Psycological Science’ pela ‘Fairfield University’ em Connecticut, tinha revelado que o excesso de fotos podem nos impedir de ter lembranças mais detalhadas. Como conseguiram entender isso? Os pesquisadores tinham pedido a uns estudantes que visitassem um museu e fotografassem algumas obras. No dia seguinte, eles foram interrogados e aí descobriram que aqueles estudantes que fizeram as fotos das obras lembravam menos do que aqueles que somente olharam para elas sem fazer fotos. Assim, foi provada a dificuldade em lembrar os detalhes das obras fotografadas. A pesquisadora Linda Henkel, autora do estudo, explica: “As pessoas, às vezes, usam as máquinas fotográficas sem pensar muito. Quando, porém, confiam na tecnologia para lembrar, isto pode ter um impacto negativo sobre o modo em que se memorizam as experiências.”

Continua a pesquisadora: “Para lembrar, devemos acessar e interagir com as fotos, e não somente acumula-las.” Concluindo, sinalizo um estudo da Harvard University, da University de Wisconsin-Madison e da Columbia University, que focaliza como muitas pessoas substituem as próprias lembranças com a web. Praticamente, usam a rede como uma ‘memória externa’ para consultar quando houver necessidade ou interesse.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net