19 de dezembro, 2016 - Belém

Feliz a pessoa que ajuda o pobre


Os pobres são um desafio para toda a sociedade. A pobreza é o grito de uma realidade que não deveria existir. Por que isso? É difícil dar uma resposta exaustiva, mas uma coisa é certa: Deus não criou isso! Isto é obra do ser humano. Na realidade, porém, o salmo 40 do Antigo Testamento, das Sagradas Escrituras, propõe mais uma vez a teoria da retribuição em que delito e doença estão intimamente ligados: “Senhor; sarai-me, porque pequei contra vós”. Portanto, é o salmo de um doente que está afetado também de uma doença espiritual, aquela da traição e da ironia dos falsos amigos. Mas o salmo também penitencial é marcado por uma viva esperança no perdão de Deus. Leia atentamente o que diz:

“Feliz quem se lembra do necessitado e do pobre, porque no dia da desgraça o Senhor o salvará. O Senhor há de guardá-lo e o conservará vivo, há de torná-lo feliz na terra e não o abandonará à mercê de seus inimigos. O Senhor o assistirá no leito de dores, e na sua doença o reconfortará. Quanto a mim, eu vos digo: Piedade para mim, Senhor; sarai-me, porque pequei contra vós. Meus inimigos falam de mim maldizendo: Quando há de morrer e se extinguir o seu nome? Se alguém me vem visitar, fala hipocritamente. Seu coração recolhe calúnias e, saindo fora, se apressa em divulgá-las. Todos os que me odeiam murmuram contra mim, e só procuram fazer-me mal. Um mal mortal, dizem eles, o atingiu; ei-lo deitado, para não mais se levantar. Até o próprio amigo em que eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar. Ao menos vós, Senhor, tende piedade de mim; erguei-me, para eu lhes dar a paga que merecem. Nisto verei que me sois favorável, se meu inimigo não triunfar de mim. Vós, porém, me conservareis incólume, e na vossa presença me poreis para sempre. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, de eternidade em eternidade! Assim seja! Assim seja!”

Esse hino proclama de um lado a tristeza e o medo que afligem o doente, e de outro lado, exprime a confiança da presença de Deus na sua vida atormentada, dando-lhe força, segurança, experimentando o seu perdão. Isto é uma alegria imensa. E na parte central do hino aparecem os inimigos do fiel em oração. Esses opositores amaldiçoam e desejam para ele, fiel, não somente a morte física, mas também a espiritual com a eliminação do nome, isto é, da lembrança; sem o nome desaparece na história.

Também a metáfora do ‘calcanhar’ sugere a ação brutal de quem esmaga o seu concorrente. Revela assim o autor do salmo que o amigo de total confiança se transforma traidor e, ao mesmo tempo, agressor indomável. O sofrimento se dobra. Parece o fim. Mas a oração se inflama mais ainda nessa realidade tão triste e amarga. Deus ama tanto que não quer vingança, mas perdão. O triunfo de Deus se manifesta no perdão. É o amor de Deus que salva e não a vingança das pessoas. A experiência do fiel em oração experimenta essa verdade: Deus é superior a todas essas traições e o fiel se sente confortado em seguir esse ensino do seu Senhor Onipotente. Sente-se preenchido na sua plenitude da vida em viver o amor de Deus e rejeitando a vingança humana.

Aqui cabe muito bem o ensino do papa  Francisco com a carta Apostólica “Misericórdia e mísera” em que nos indica a realizar uma ‘revolução cultural’ dos pequenos gestos, de total simplicidade, para fazer prevalecer na nossa vida ‘o tempo da misericórdia’. É essa experiência que nos leva a fazer grandes mudanças na vida humana, porque isto revela a presença do nosso Deus. E para concretizar esse maravilhoso salmo, sempre o papa Bergoglio instituiu o “Dia Mundial dos Pobres”, que será celebrado no penúltimo domingo do ano litúrgico da nossa Igreja.

O próprio santo padre disse o seguinte: “Intuí que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário da Misericórdia, deve-se celebrar em toda a Igreja, na ocasião do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres”. O papa Francisco afirma ainda que este ‘Dia Mundial dos Pobres’ é uma “digna preparação para bem viver a Solenidade de Cristo Rei do Universo”, que encerra o ano litúrgico. Uma forma para promover a identificação da Igreja com os “menores e os pobres”. Justamente o santo Padre quis salientar que a justiça social, a paz na sociedade, será marcada somente quando se terá uma efetiva promoção em todos os sentidos dos menores e pobres. E essa jornada pretende impulsionar as comunidades e os cristãos a “refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho”.

Assim sendo, não podemos fazer vista grossa  perante os pobres, mas sim nos comprometer com eles. Somos testemunhas da misericórdia, e como tal não podemos arredar ‘os pés’. Portanto, qual são os sinais que podemos dar para viver esse comprometimento? Sempre Francisco nos recorda que devemos ser autores de uma cultura da misericórdia que possa se opor firmemente a indiferença e a desconfiança entre as pessoas. É nisso que consiste também a nossa felicidade.

 *Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net