18 de setembro, 2014 - Belém

Era digital promove novo ser religioso


A era digital nos levou a uma nova maneira de ser e agir. Com ela, fomos além da própria escrita e, assim, um novo ser humano se apresenta no cenário mundial. Até na vida religiosa os reflexos são percebidos. Parece-me que agora as pessoas manifestam novas maneiras de crer e de realizar celebrações. Eis que estamos diante de mais uma religião: a do digital. O que, realmente, está acontecendo? A superação das escrituras pela era digital comporta uma nova existência. Prevalece o virtual. Essa nova religião ancora-se nesse mundo virtual. É a nova maneira do ser humano tecnológico moderno querer se comunicar com Deus, que justamente se baseia nessa nova comunicação entre as pessoas. No que consiste isso?

“A palavra digital tem origem no latimdigitus (palavra latina para dedo), uma vez que os dedos eram usados para contagem discreta. Seu uso é mais comum em computação e eletrônica, sobretudo onde a informação real é convertida na forma numérica binária (Wikipédia, a enciclopédia livre)”. Portanto, que tipo de ser humano religioso pode surgir desse tipo de numeração? Que espiritualidade vai emergir? O que me parece evidente aos meus olhos é um desafio à religião da ‘ideologia do signo’. Qualquer conteúdo é tirado do ‘jogo da matéria’ para ser incluído na comunicação numérica do oceano telemático da comunicação. 

Praticamente, a mensagem é mediada aritmeticamente, isto é, com números, letras, ou ícones, ou contínua, como sons, imagens, outras medidas de sistemas contínuos. A mensagem é transmitida por signos. O ser religioso hoje vai além do corpo para ser levado pelo fluxo numérico. Vocês podem ver todos os dias como as relações entre as pessoas se digitalizam nas redes sociais. A consciência se transforma em número reproduzido, transportável e, assim, comerciável. Em certo sentido, poderíamos dizer que a religião da era digital é espiritualidade sem materialidade. Por isso se compreende o porquê de certas atitudes dos jovens hoje em relação a própria maneira de manifestar a sua religiosidade. 

Essa nova geração encontra dificuldade em se comunicar com Deus com uma tradição ritual forte, física. Essa concepção do fim da materialidade do rito coincide com um sagrado desencarnado, sem tempo e sem espaço, sem lei, onde Deus pode ser chamado por qualquer um que tenha a vontade de invoca-Lo. Vão se criando comunidades universais que podem se deslocar sem limites para qualquer lugar. Hoje em dia, há exemplos em que não se exige mais uma igreja templo, de um calendário litúrgico e de uma língua. Essas novas manifestações religiosas se importam apenas com a própria intenção de invocar Deus, e daí se constrói o novo templo invisível, onde outros fiéis são convidados e livres para aceitar ou não o convite. 

A nova religião é conexão, comunidade que não precisa mais de forma nem conteúdo, mas vive das relações que unem os indivíduos e prende, ao mesmo tempo, o vazio. Nessa era digital, o Deus único perdeu a si mesmo para dar lugar a um politeísmo. Essa nova religião digital invade qualquer lugar, não tem limites enquanto é virtual e também não tem um nome. Poderíamos defini-la como pós-monoteísta, porque na sua manifestação se revela multiforme, sem uma própria identidade de um Deus único. Veja bem, com o declínio da sintaxe dando cada vez mais espaço aos bits aumentam esses tipos de fiéis da nova religião digital.

É uma religião que leva o divino além daquilo que está escrito e daquilo que faz documento. Entretanto, tem ainda ritualidades humanas porque vão filtrando a divindade pelas emoções e condicionamentos relacionais, tanto privado quanto público. E essa manifestação religiosa, se podemos dizer politeísta, é uma maneira necessária de comunicar na pluralidade para compreender aquilo que rodeia o novo ser digital e, ao mesmo tempo, se interacionar. Esse neopoliteísmo numérico é algo de novo no cenário mundial. Essa religião digital praticamente coloca em discussão o único e verdadeiro Deus. 

Os fiéis, para se conectarem com o Transcendente, se servem dos algoritmos do jeito que acharem melhor. Certamente, isto se torna um desafio para todos nós que nos imergimos na tecnologia e que queremos ser fiéis ao nosso Senhor Jesus. Uma coisa é certa em tudo isso: precisamos conhecer esse novo mundo digital e saber dialogar com ele para encontrar a verdade que é sempre Jesus, o Cristo.

*Claudio Pighin, sacerdote, jornalista italiano naturalizado brasileiro, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net