22 de fevereiro, 2014 - Belém

Drogados de internet


A juventude de hoje está cada vez mais conectada à internet. Aliás, parece até que os jovens ficam doentes se não estiverem ligados a este poderoso instrumento digital. Já foram revelados casos de pessoas ansiosas ou depressivas que foram, em certo sentido, socorridas através do remédio “computador”, ou outro aparelho digital. Em meu ponto de vista, e pelo que eu pude saber, posso dizer que a internet se tornou uma verdadeira e própria dependência, quase como uma droga, e que as consequências de tudo isso podem gerar comportamentos anômalos e depressivos.

Em um estudo publicado pelo Journal of Clinical Psychiatry, 4% dos jovens dos Estados Unidos, entre 14 e 18 anos, já são considerados “drogados de internet”. O estudo norte-americano reflete a realidade de países europeus e chega até nós. No final, todos somos sujeitos às regras do mercado, que determina de um modo ou de outro a sentirmos vivos sujeitos dessa nova realidade. Esses tipos de pesquisas nos ajudam a compreender o nosso tecido social com olhos mais críticos. Nesse caso, o estudo foi aplicado em 3.500 estudantes, de dez escolas norte-americanas de ensino médio, que queriam saber sobre saúde, costumes e uns tipos de comportamentos a risco.

Entre as várias perguntas, tinham umas em relação à  internet. Queriam saber o tempo dedicado a este meio e o uso, sobretudo, problemático e perigoso da Rede. Nesse sentido, os jovens tinham de responder a perguntas como “você deixou de ir para escola para fazer uso da internet?” Ou, “você está sentindo ânsia se não se conectar com a internet?”. Como dissemos acima, os 4% da amostra revelou um uso problemático do meio. Por exemplo, as meninas parecem mais conscientes dos riscos. 12% delas têm medo de ter um problema com internet. No entanto,  os meninos são 9%.

De fato, 17% deles passam mais de 20 horas ligados à internet e 9% deixaram de frequentar as aulas para ficar on-line. Além do mais, foi constatado que o uso problemático está diretamente ligado à depressão, aos comportamentos de risco e aos aspectos agressivos. Falando com profissionais da área da Saúde, pude ver que não é mais uma novidade saber que tem uma relação entre internet e depressão. Recentemente, foi feita também uma pesquisa entre os jovens chineses e o resultado foi o mesmo.

A pesquisa foi publicada nos Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine e confirmou o uso problemático da internet em 6,2% dos meninos, e parece que os estudantes pertencentes a esse grupo que sofria depressão eram duas vezes e meio a mais que o povo em geral. Tanto é verdade que os pesquisadores lançaram o alarme de “fazer interventos imediatos  e prevenções eficazes para reduzir o impacto da depressão nos jovens”. Isto pode nos dizer que é sábio tomar em consideração algo nas escolas para evitar ou curar precocemente os jovens a risco pelo uso problemático da internet.           

Outra pesquisa realizada por um grupo de pesquisadores americanos da Columbia University de New York afirma que a Rede está enfraquecendo de maneira bem marcante a memória das pessoas, porque delegam todos os esforços de conhecimento aos motores de busca. A Rede se tornou praticamente uma memória externa útil que subsistui a nossa. Assim a memória do ser humano vai se tornando preguiçosa e perde a sua flexibilidade. Aplicaram um teste em 46 estudantes da Harvard University sobre uma série de argumentos ligados à internet (como google, yahoo...) e nisso se revelaram lentos e ineficazes nas respostas.

No entanto, quando as perguntas eram extraneas à Rede viram que as respostas eram mais rápidas e eficientes. Em um segundo e terceiro teste, os pesquisadores impuseram aos voluntários umas perguntas sobre as quais sucessivamente teriam sido interrogados para verificar as informações lembradas. Durante esse exercício os jovens tinham a permissão de fazer anotações no computador (offline), porém a um grupo foi dito que as anotações teriam sido salvas. Mas, ao outro grupo, disseram que as anotações teriam sido canceladas. Quais os resultados?

Os dois grupos reagiram diferentemente. O grupo que tinha as anotações salvas no PC, automaticamente esqueceu as maiores informações; e o outro, que não tinha salvo, e portanto tinha que se esforçar mais, conseguiu memorizar maiores informações. Conclusão: a Rede pode aposentar a nossa memória.

 *Claudio Pighin é sacerdote, jornalista italiano naturalizado brasileiro, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net