12 de novembro, 2015 - Belém

Deus, populismo e comunicação


O mundo secularizado determinou, em prática, o fim da soberania de Deus na sociedade. E quem ficou no lugar de Deus? Pelo menos, pelas manifestações (em todos os sentidos) particulares e públicas, podemos dizer que o povo se tornou ele próprio soberano. Observa-se que nos países onde a soberania popular coincidiu com a liberal-democracia, o relacionamento entre povo e Deus se reescreveu em termos de liberdade religiosa e de separação entre Estado e Igreja. De fato, para as igrejas, a separação é a melhor garantia contra a ingerência do Estado; e para os Estados, a separação é a melhor garantia contra a ingerência clerical ou dos poderes religiosos. 

Em um Ocidente espantado pelo mundo global, a crise do modelo laico-separatista coincidiu com aquela da liberal-democracia. No entanto, novas formas de alianças surgiram entre ‘Deus e o povo’. Isto se pode notar como a política enfatizou, de maneira especial, todo o seu discurso e a sua prática sobre o populismo (as lideranças políticas influenciam o povo para obter o seu apoio ou consenso em governar). De fato, o populismo não é uma doutrina, mas uma estratégia dos mesmos políticos para alcançar os seus objetivos. E a propaganda populista, considerando-a um atalho para ganhar poder e mobilizar as massas, sobretudo nas campanhas eleitorais, foi e ainda é um fenômeno cíclico histórico que ameaça a própria essência da democracia e seus valores a ela ligados, como os direitos humanos individuais e da tolerância. 

A respeito disso, não precisa citar nomes, tanto dos dias de hoje quanto do passado, porque são conhecidos a todos pelas habilidades populistas deles. E, aos poucos, através dessa prática, Deus começou a ser marginalizado, ou pelo menos não ter mais um papel central na vida sociopolítica. Deus fica em segundo lugar, porque embora o povo esteja acima de tudo, às vezes, precisa de ‘deus’ para reforçar a demagogia (a arte de conduzir o povo) das lideranças. Assim sendo, veio-se reforçando uma forma de religião do povo feita de identidade e símbolos, de valores e tradições. O deus do povo pressupõe “civilização” e “culturas” contrapostas, e demarca o “nós” e o “eles”. 

Esse ‘deus’ funciona porque, quando precisar, ele exclui ou inclui. Um deus que une o povo excluindo o inimigo ou o diverso, mas ao mesmo tempo promete incluir quem esteja disponível a fazer parte do grupo ou a se reconhecer a eles, mostrando toda fidelidade. O deus do povo tem saudade, sobretudo, do passado. É nisso que se fortalecem certos revanchismos e ideologismos excluvisistas. Segundo o professor francês Olivier Roy, o populismo rasga, destrói igrejas e religiões, porque quebra o monopólio sobre Deus. Mas é também verdade que para muitas igrejas o deus populista é uma oportunidade de resgate, uma ilusão a um possível retorno ao monopólio, à sedução do sucesso. 

Certamente, existem entre as fileiras do catolicismo uns adeptos do populismo, mas que contrariam a mesma Igreja Católica Apostólica Romana. Um catolicismo populista não pode estar em sintonia, por exemplo, com o ensino do Concilio Vaticano II. Toda a teologia,sobretudo a própria eclesiologia na concepção do povo de Deus, se opõe a uma prática populista. Na verdade, um deus populista é reducionista e contraditório; mais do que unir, separa. No secularismo atual, o povo não pertence mais a Deus. Os populistas buscam consenso e poder revertendo os termos: o deus deles pertence ao povo; vale porque serve ao povo. 

Não é o Deus soberano, o Deus de Jesus, que toma por primeiro a iniciativa para salvar o seu povo. E o povo se abre a Ele para se deixar conduzir pelos seus caminhos para alcançar vida em plenitude. O povo não tem capacidade de manipular o Deus de Jesus nem pode pretender esse tipo de façanha, porque o Criador está acima da sua criatura. O salmo 139,13-14 reza a Deus com a linguagem da fé: “Sim! Pois tu formaste os meus rins, tu me teceste no seio materno.Eu te celebro por tanto prodígio, e me maravilho com as tuas maravilhas! Conhecias até o fundo do meu ser”. 

Nesta oração há uma convicção simples, mas profunda, que nos mostra como Deus é a origem da vida, Deus é aquele que é “em princípio”. Nesse novo terceiro milênio, essa visão e essa linguagem parecem entrar em crise. Nessa perspectiva, a visão populista não tem como conseguir esse objetivo de ajudar a alcançar aquele mistério pessoal de vida que a fé indica em Deus. E Jesus nos revela uma vida ligada a uma história divina e humana, uma vida que não tem medo de se perder, mas que se doa, e que de um lado promove as pessoas a compartilhar com Deus, de outro lado elas são capazes de servir os outros. 

*Cláudio Pighin, sacerdote, jornalista.

Email: clpighin@claudio-pighin.net