05 de junho, 2014 - Belém

Deus não é violento


Quantas vezes ouvi dizer, fazendo referência à Sagrada Escritura do Antigo Testamento, que Deus é violento, exterminador, cruel, guerreador. Gostaria de, nessas poucas linhas, tentar esclarecer essas impressões dos interessados e, assim, ter uma noção verdadeira e correta do Deus da Bíblia. É verdade que a gente encontra expressões como 'Deus dos exércitos', mas é preciso logo esclarecer que a expressão 'exércitos' não se refere a um contingente militar, mas ao sentido 'cosmológico-criatural', isto é, o Deus do universo, o Deus das coisas em ordem. Além do mais, achei alguns dados bíblicos alarmantes transmitidos pelo biblista Raymund Schwager, em que a mesma violência comparece sob o aspecto da 'ira de Deus', mencionada aproximadamente 1000 vezes e, mais ou menos, 600 passagens que falam em matar homens, ações de guerra e relativas a matança de pessoas e povos. Mais ainda, quase 100 passagens que nos relatam que Deus ordena matar pessoas.

Para compreender tudo isso, é necessário resgatar a concepção de Deus, daquele tempo, que possuía dois valores diferentes. Nas religiões anteriores às épocas clássicas, como naquelas limítrofes com Israel, o olimpo religioso se dividia geralmente em divindade bondosa e misericordiosa e em divindade cruel e violenta, devido ao fato que o ser humano sempre ligou o sagrado nos dois aspectos fundamentais que eram o mistério encantador e o mistério que causa temor. Com a entrada do monoteísmo (um só Deus) hebraico, isto naturalmente não podia mais existir, não podiam conviver mais divindades. Deus é um só, porém, esses contatos com as outras experiências religiosas não monoteístas, condicionaram em recepcionar no Deus único os dois aspectos das divindades misericordiosas e violentas. 

Por esse motivo, as concepções violentas que se encontram nas Sagradas Escrituras não são nada mais o que resta de um condicionamento da experiência com essas religiões arcaicas da ambivalência das divindades. Essa explicação não pretende ser exaustiva porque mais aprofundamentos a respeito podem ser feitos, sobretudo no sentido teológico. De toda forma, a ação do Deus da Bíblia nunca foi uma opção que vai e vem entre realidades contrapostas. É verdade que o Deus bíblico é sempre um Deus que julga, porém mais que condenar é uma opção Dele em favor dos oprimidos e dos empobrecidos. Evidentemente, tudo isso leva uma autocondenação dos mesmos opressores e dos poderosos. Nesse perfil que se delineia aquela violência que lemos nas Sagradas Escrituras e sobretudo no Antigo Testamento. 

Repito: nos deixa perplexo essa violência que a Bíblia atribui diretamente a Deus. Mais uma coisa que precisa focar, o ser humano, nas suas concepções religiosas, manifesta aquilo que é ou aquilo que experimenta de ser. Assim sendo, as pessoas têm a tendência de colocar em Deus não somente os aspectos bons, mas também os violentos. E esse tipo de manifestação humana se enraíza na vida cotidiana e se torna até patrimônio cultural. Portanto, o problema da violência tem até raízes transmitidas em imagens de um Deus violento. Na Bíblia, a violência colocada em Deus se torna um instrumento útil e necessário para obter paz e salvação. Porém, não se quer ver o caráter horrível da violência, da nossa violência projetada em Deus. 

Na Bíblia encontramos o Deus que doa a vida, mas, todavia dá também a morte, cria e destrói, eleva e humilha. Porque, exatamente, quando dizemos que Deus é bom mas, ao mesmo tempo, é justo, queremos dizer que é também violento para fazer prevalecer a justiça. De fato, constatamos nas religiões que acreditam em um só Deus o ser humano que projeta Nele os aspectos terríveis e fascinantes que lhe pertence ao próprio ser humano. No entanto, nas religiões que acreditam em mais deuses o ser humano projeta no princípio do bem os aspectos positivos e no princípio do mal aqueles negativos. Portanto, na Bíblia, é bom salientar de novo, temos o choque de duas imagens de Deus. Quando lemos a Sagrada Escritura, não encontramos diretamente Deus, mas as imagens de Deus. Quem nos passa isso? Moisés, o povo de Israel, entre outros, porque Deus era impossível vê-lo. Então, quais as imagens que refletem o verdadeiro Deus? As imagens violentas são nossas, não são de Deus. Somos nós os violentos que jogamos a mesma violência em Deus para justifica-la. Deus é totalmente outro, é somente fonte de vida.     

*Claudio Pighin, sacerdote, jornalista italiano naturalizado brasileiro, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net