29 de janeiro, 2015 - Belém

Cristãos do crucificado


Todos os dias, coloco-me diante do crucifixo para contemplá-Lo. Não tenho palavras, mas somente silêncio. Um silêncio profundo, de vez em quando, interrompido pelas reminiscências mentais cotidianas. Nessa viva contemplação, conscientizo-me de Jesus crucificado e de seus sofrimentos e humilhações. Da sua morte cruel e atroz. Este é o meu Deus que aposto a minha vida. É uma loucura aos olhos humanos. Como apostar em um Deus derrotado, difamado, sem poder nenhum? Que Deus é esse? Ensinaram-me que Ele é poderoso, onipotente e onisciente. Por que, então, acabou daquele jeito? Onde está toda essa ciência, poder e onipotência? 

Em minha contemplação prolongada, o crucifixo fica sempre calado, mas sempre presente. Mentalmente, tento dar razões e interpelações. No entanto, são sempre insatisfatórias e reduzidas. Aumenta a minha inquietação. Como naquele tempo que foi crucificado e sofreu na solidão e no silêncio, assim continua hoje na cruz, na solidão e no silêncio. O mundo não o percebe, na verdade, porque é demais atraído pelas falações e barulhos, pelo caos e intrigas humanas. O ser humano em si não consegue reconhecer um Deus desse jeito, humilhado e derrotado, mas prefere um deus triunfante e cheio de glória. 

Até em nossas igrejas se prefere ostentar uma manifestação de um Deus majestoso e poderoso, através das pompas e obras. Porém, o Deus crucificado não combina nada com tudo isso. Por isso, Ele continua em silêncio e nos deixa na nossa falação religiosa, respeitando os tempos de ter a coragem de segui-Lo de verdade. Só assim o grande desafio desse verdadeiro Deus-Jesus-crucificado aos poucos será compreendido. É um processo demorado, como é um processo demorado o sofrimento e a incompreensão. Às vezes, parece que Ele me diga, daquele crucifixo da minha capela: “por que ainda está apostando em mim? Não dou nenhuma segurança de vitória e sucesso pessoal, social e político, se não a humilhação de servir e perder a própria vida para os outros?”

Nessa circunstância, lembro-me das palavras tão apropriadas de ‘Pedro’, o papa Francisco, que nos diz: “Temos medo que Deus nos faça seguir novas estradas, faça sair do nosso horizonte frequentemente limitado, fechado, egoísta, para nos abrir aos seus horizontes. Mas, em toda a história da salvação, quando Deus se revela traz novidade– Deus traz sempre novidade -, transforma e pede para confiar totalmente n’Ele” (homilia na praça São Pedro, 19. 05. 2013). O crucifixo é sempre o mesmo e todos os dias se deixa contemplar, mas é imóvel. É imóvel como toda a humanidade que não consegue se entender; é imóvel como a dor que toma conta das crianças que morrem antes de nascer, que morrem pela fome ou pelo abandono; é imóvel como a juventude sem esperança de vida e violentada; é imóvel como todos os pais desesperados que não têm capacidade de amparar e ajudar suas famílias para sobreviver nas guerras; é imóvel como as mães sem futuro, porque violentadas e sem perspectivas de vida por falta de tudo; é imóvel como todas as pessoas que morrem sem nenhuma assistência; é imóvel como aqueles migrantes que não acham um lugar para serem acolhidos; é imóvel como aqueles que vivem pelas ruas sem nenhum agasalho e abandonados por todos.

O crucifixo não desce da cruz e continua pendurado na vida das pessoas e do mundo. Quanta dor e sofrimento! E Jesus crucificado compartilha tudo isso, e por isso não tem tempo para partilhar a realeza de qualquer poder. Não consegue se alegrar com as manifestações majestosas e poderosas do ser humano, porque é demais imergido na cruz da vida. Não consegue nem falar, porque o sofrimento da compartilha humana não o deixa abrir a boca. Única coisa que demonstra o crucifixo é ter força para aguentar tudo esse sofrimento humano, porque confia cegamente em Deus Pai. É isto que me inspira o meu Deus crucifixo: pela minha humanidade se torna presente a Sua Vida. 

É a partir daí que me anima a ir ao encontro do Crucificado, além do crucifixo. Assim sendo, o papa Francisco continua confirmando esse encontro: “É o Espírito Paráclito, o «Consolador», que dá a coragem de levar o Evangelho pelas estradas do mundo! O Espírito Santo ergue o nosso olhar para o horizonte e impele-nos para as periferias da existência a fim de anunciar a vida de Jesus Cristo. Perguntemo-nos, se tendemos a fechar-nos em nós mesmos, no nosso grupo, ou se deixamos que o Espírito Santo nos abra à missão.” O crucifixo continua Vivo entre nós.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net