16 de outubro, 2014 - Belém

Crianças tecnológicas


Como parte da minha atividade missionária, costumo visitar as famílias que estão envolvidas com meu trabalho pastoral, para abençoa-las e anima-las na vocação cristã. E nos encontros em famílias, algo que sempre me chama atenção é o comportamento das crianças. Curiosamente, já observei crianças que não conseguem comer sozinhas, mas sabem manusear um tablet com habilidade. Não sabem segurar uma colher ou um garfo na hora da refeição, mas dominam com destreza as novas tecnologias. Os olhos delas se concentram naqueles aparelhinhos, que não as deixam perceber o alimento que está diante delas. Seus dedos tocam ligeiros na telinha do celular, ativando pequenos programas que as absorvem por completo. 

Naturalmente, admirando a facilidade de como lidam com a nova tecnologia, eu me pergunto também se essas mesmas crianças futuramente terão a capacidade de lidar com canetas, lápis, pinceis, entre outros? Será que conseguirão ainda segurar entre os dedos esses instrumentos 'medievais' para elas? As crianças do novo milênio têm familiaridade com a genialidade digital, mas ignoram os instrumentos mais simples do passado, criando uma realidade humana sempre mais espacial e menos local. Crianças hábeis em lidar com as telinhas de toques e teclados interativos, mas ignorantes no uso da caneta. Na Inglaterra, descobriram que as crianças do maternal sabem utilizar melhor os aparelhos eletrônicos do que construir brinquedos ou brincar com a turma.

Considero um risco inverter as etapas do crescimento das crianças nos primeiros seis anos de vida em que o ser humano está apto para aprender os movimentos, socializar e falar. A excessiva proximidade do mundo virtual pode comprometer esse percurso básico educativo de crescimento. Nada de mais humano, senão em se opor a todas as forças que nos afastam do real da vida, que nos alienam, para exaltar gênero humano, evitando esvazia-lo da sua vitalidade. Uma pesquisa divulgada no site inglês Daynurseries.co.ukchama a atenção do perigo digital. Fizeram uma entrevista com 806 pais e especialistas em formação infantil e os resultados são bem interessantes. 

Somente um entre quatro considera que o utilizo da tecnologia nas escolas maternais e jardim de infâncias tem um impacto positivo sobre as crianças. No entanto, a maioria é convencida de que os menores de sete anos devam ficar livres para viver as experiências tridimensionais deles, sem ajuda digital. Perante essas considerações, as crianças modernas tecnológicas terão talvez dificuldades em viver uma vida real e ter consequências negativas de locomoção, segurar na mão uma caneta e sabê-la usar corretamente. Também algumas crianças poderão encontrar problemas em aprender a ler e a escrever. 

Outro aspecto a ser visto é que o excesso de tecnologia leva as crianças, naturalmente, ao sedentarismo e, assim, o risco de obesidade se torna sério. A essa altura, me pergunto se é realmente necessário desde a creche o uso do computador ou de tablet? Alguns sustentam que o recurso da tecnologia moderna, desde a idade pré-escolar, permite que as crianças se sintam a vontade para melhor iniciar a escola. De outro modo, seria interessante e sábio que os próprios responsáveis pela formação das crianças se disciplinem no uso dessas novas tecnologias a fim de colaborar com os pequenos, que já interagem com as ferramentas modernas.

É importante ainda ter cuidado com esse uso sempre mais intenso de iPad e parecidos nas escolas infantis que substituem os tradicionais métodos de ensino e os momentos de lazer e de diversão. Repito: as crianças modernas, que defino tecnológicas, lidando continuamente com esses instrumentos, deixam de lado os brinquedos tradicionais e isto pode comportar demora na aprendizagem da linguagem. Essas colocações foram apresentadas em um congresso da Pediatric Academic Societies and Asian Society for Pediatric Research realizado esse ano em Vancouver no Canadá. 

O uso de tablet e outros aparelhos digitais não podem substituir o contato direto dos pais que representam a melhor fonte de aprendizagem. Os pais não devem se sentir tranquilos porque as crianças deles estão ocupadas com esses engenhos e, assim, facilmente controladas. Não é suficiente saber onde estão, mas precisa dar as condições de viver uma vida real, contada ao vivo pelo adulto em quem confia. As crianças hoje precisam, como no passado, de um herói da vida cotidiana que pegue as mãos delas e as conduzam, mostrando que não existem problemas sem soluções. Antes de tecnológicos sejamos humanos.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net