05 de dezembro, 2014 - Belém

Ateísmo ou ignorância


Há algo dentro de nós que nos leva, constantemente, a perguntar: será que Deus existe? De vez em quando, a ideia de que Deus pode ser uma manipulação humana paira como dúvida entre as pessoas. Já ouvi alguém dizer que as doenças sem cura, como o câncer, são demonstrações da inexistência de Nosso Senhor. Então, eu pergunto: quem é Deus para ti? Alguns dizem que é “tudo”; outros, que é um pai que fica perto de seus filhos e filhas; há pessoas que julgam ser Deus um mistério inacessível, um ser profundamente distante e desconhecido. Há os que pensam que ele é o motor da vida, que rege o mundo, ou um produto mental que serve aos interesses do ser humano. 

Naturalmente, o termo ‘Deus’, na nossa sociedade hodierna, parece-me altamente poluído, devido ao seu uso polivalente de significar tudo e o contrário de tudo. O uso excessivo da palavra ‘deus’ fez com que ela fosse deturpada e maltratada na manipulação dos eventos históricos. Tem gente que, quando ouve a palavra, se sente inibido ou aterrorizado. Neste ponto, quero te ajudar a compreender como fazer uma experiência de Deus, de um Deus vivo, e não uma invenção do ser humano. Acreditar em Deus quer dizer fazer expressamente uma experiência de confiança. É evidente que não podemos obrigar ninguém a ter confiança. O que acontece: eu posso doar a minha confiança a outro, mas somente se este sabe me inspirar confiança. 

E, justamente, sem confiança, não se vive. Portanto, o seguimento de Deus comporta um clima total de confiança por uma vida correta e verdadeira. Agora, visto que o ser humano experimenta demais a dor, o sofrimento de doenças incuráveis, como realmente fazer em tudo isso uma experiência de Deus? Como acreditar em Deus perante o enfrentamento de um câncer? O ser humano é derrotado e abandonado a si! ‘Onde está Deus?’ É o grito do ser vivente. Para nós, ocidentais, dois possíveis cenários de como foi concebido e compreendido o sofrimento e a dor: aquele da cultura grega do sentido da tragédia, e aquele cristão do sentido da redenção. Nesse sentido, para o cristão, a redenção é capacidade, que nasce do amor, em saber enfrentar de cabeça erguida a dor e o abandono. 

O Deus de Jesus Cristo não é o Deus das respostas às perguntas das pessoas, mas o Deus das perguntas que interpela a consciência das pessoas e suas responsabilidades. Lembram-se, por exemplo, no Antigo Testamento, onde Deus chamou Adão, e disse-lhe “onde estás?” e ele respondeu: “Ouvi o barulho dos vossos passos no jardim; tive medo, porque estou nu; e ocultei-me.” O Senhor Deus disse: “Quem te revelou que estavas nu? Terias tu porventura comido do fruto da árvore que eu te havia proibido de comer?” (Gn 3,9-11) Outra passagem onde Deus disse a Caim: “Onde está seu irmão Abel?" – Caim respondeu: “Não sei! Sou porventura eu o guarda do meu irmão?” O Senhor disse-lhe: “Que fizeste! Eis que a voz do sangue do teu irmão clama por mim desde a terra.” (Gn 4,9-10)

Portanto, o cristão não conhece um caminho para evitar a dor, mas, pelo contrário, um caminho junto com Deus que o enfrenta, a dor compartilhada com o próprio Deus. Ser cristão não significa evitar a dor, mas assumi-la. Infelizmente, o nome de Deus é usado demasiadamente, fazendo comodidade em todos os setores da sociedade para tentar qualificar as próprias intenções e vontades. Deus, insisto, é Aquele que se busca e juntos Ele se deixa buscar. A respeito disso as Sagradas Escrituras nos iluminam: “É o teu rosto, Senhor, que eu procuro” (Sal 27,8).  Também a esposa dos Cantares do Antigo Testamento: “Durante as noites, no meu leito, busquei aquele que meu coração ama; procurei-o, sem o encontrar. Vou levantar-me e percorrer a cidade, as ruas e as praças, em busca daquele que meu coração ama; procurei-o, sem o encontrar. Os guardas encontraram-me quando faziam sua ronda na cidade. Vistes acaso aquele que meu coração ama? Mal passara por eles, encontrei aquele que meu coração ama. Segurei-o, e não o largarei antes que o tenha introduzido na casa de minha mãe, no quarto daquela que me concebeu.” (Ct 3,1-4) 

Assim, também no Novo Testamento, através das diferentes parábolas, nos é revelada essa busca e, ao mesmo tempo, somos buscados por Deus. Ele, certamente, nos ama primeiro, nos perdoa. Portanto, se não consigo encontra-Lo, não é por acaso uma ignorância mais que ateismo?

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