22 de maio, 2014 - Belém

As crianças martirizadas da Síria


Estou na Itália, por motivos de saúde, e observo aqui a cobertura jornalística dos correspondentes internacionais, que mandam notícias sobre a problemática das crianças martirizadas na Síria. É uma situação gravíssima. A guerra completou três anos no último dia 15 de março. E você, leitor, pode imaginar as consequências desse período de conflito armado. São três anos de pressão psicológica e terrorista. Como viver desse jeito? Ninguém se sente seguro. O dia seguinte é incerto. E no meio desse mundo bélico temos as crianças, as mais indefesas. Segundo testemunhas dessa guerra estúpida, o número de crianças atingidas já passa de cinco milhões. Isto é de doer o coração. 

De fato, com um quadro desses, o futuro do país está ameaçado, porque pode perder uma geração inteira. Se formos analisar somente os números, já temos uma maior compreensão da realidade: veja bem, a Síria conta com, aproximadamente, 24 milhões de habitantes e há 5 milhões de meninos e meninas em risco por causa da crise. Por isso, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (com sigla em português ACNUR, e UNHCR em inglês) - órgão das Nações Unidas, Unicef, SavetheChildren e World Vision - lançou uma campanha para arrecadar um milhão de assinaturas pela Síria, até o dia 15 de março. 

Com isso, as entidades querem mostrar para a opinião pública mundial a dramaticidade do conflito sem fim daquele país do Oriente Médio, além de propor intervenções imediatas. Essas entidades, além do mais, alertam que não é possível permitir mais um quarto ano de derramamento de sangue, de sofrimento e de falta de educação. É extremamente necessário, em primeiro lugar, se opor à violência contra os pequenos indefesos, acabar com o recrutamento das crianças e comprometer-se para uma solução pacífica naquela região. Em segundo lugar, deve-se acabar com o bloqueio de ajuda enviada, de atacar os voluntários humanitários, as escolas e os hospitais. 

Para tanto, auspicam um renovado e firme compromisso para a reconciliação entre todas as forças da Síria. E essas crianças submetidas à guerra civil carregam infinitos traumas. Somente com um cessar-fogo desse horrível conflito, as autoridades poderão se organizar para reconduzir as crianças à normalidade e dar-lhes um futuro de tranquilidade e de paz (se isso conseguirem). Em fevereiro, um operador do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) entrou na cidade de Homs, localizada a 160 km de Damasco, para levar ajuda: 'Tinha pelo menos 500 crianças aterrorizadas, bem frágeis e emaciadas, acompanhadas na maioria pelas mães em lágrimas. Entre elas, notei umas vinte grávidas', disse o funcionário do Unicef. 

Segundo estatísticas do Unicef, em Homs, 500 crianças são bombardeadas a cada dia. Perante um cenário como esse, uma vida saudável fica comprometida. Daí o aumento também das doenças. O ACNUR sinalizou o aumento, sobretudo das doenças respiratórias. Sem ter uma esperança que cesse essa guerra, o povo continua a emigrar, buscando novas terras e nova vida. Quantas histórias de crianças sírias que pude constatar também aqui na Itália. Uma vez, uma criança italiana se queixava no refeitório da sua escola pela comida e começou a 'bater o pé'. Uma outra criança colega dela não hesitou um segundo e se prontificou a comer no lugar dela dizendo: 'nem sempre comia ou se comia era muito pouco quando estava no meu país, na Síria. Eu quero, eu gosto'.

Nesses dias, estou assistindo a chegada de mais migrantes na Sicília, mais ou menos duas mil pessoas. Todas elas tentando fugir de realidades muito tristes e tentando a sorte fora do próprio país flagelado de infinitos conflitos. Quem é que gosta da guerra? Quem é que não quer viver em paz? Todo ser humano quer isso! Assim acontece com esse povo da Síria. Não dá para aguentar mais e, portanto, a ordem é migrar. Migrar para salvar os seus filhos; tentar dar um futuro melhor, mas quantos sacrifícios! E nessas fugas de vida esses migrantes são expostos aos traficantes sem escrúpulos e exploradores de dinheiro. 

Nesses dias, a polícia italiana prendeu oito egípcios acusados de fazer parte de uma rede de traficantes de cidadãos da Síria e do Egito. Aproveitam das desgraças desses filhos de Deus para enriquecer: 4.000 dólares para chegar a Sicília e 6.000 dólares para chegar ao norte da Europa. Guerra e tráfico não favorecem a vida. 

Email: clpighin@claudio-pighin.net