30 de junho, 2016 - Belém

Ao Senhor tudo lhe pertence


Como compreender a minha dignidade e a tua dignidade? De onde ela vem? É uma conquista minha e tua? Eu tenho já cabelos brancos, isto é, sou de idade não mais jovem, e entendi que essa minha vida se torna preciosa na medida em que faço a experiência do encontro com o Senhor. É a presença do Senhor Altíssimo que nos reveste da verdadeira dignidade! É o acesso a Ele que nos abre portas para o infinito, a grandeza da nossa humanidade. Quem nos ajuda a compreender isso é o salmo 23 da Bíblia. Ele nos ajuda como abrir as nossas portas para que o nosso Deus, autor da nossa vida, possa entrar e fazer parte da nossa convivência. Leiamos atentamente o hino que diz:   

“Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita terrestre e todos os que nela habitam, pois ele mesmo a assentou sobre as águas do mar e sobre as águas dos rios a consolidou. Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer no seu lugar santo? O que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, seu Salvador. Tal é a geração dos que o procuram, dos que buscam a face do Deus de Jacó. Levantai, ó portas, os vossos dintéis! Levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o Rei da glória! Quem é este Rei da glória? É o Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha. Levantai, ó portas, os vossos dintéis! Levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o Rei da glória! Quem é este Rei da glória? É o Senhor dos exércitos! É ele o Rei da glória.”

Esse canto para o uso litúrgico no Templo de Jerusalém manifesta a potência de Deus. Depois os cristãos dos primeiros séculos o adaptaram para celebrar o ingresso glorioso de Jesus Cristo nas portas dos ínferos como vencedor da morte. Justamente, como manifestar essa vitória sobre a morte de Jesus, senão com essas palavras desse inspirado salmo? Grande hino apropriado para isso! 

Os primeiros dois versículos são um louvor ao Senhor Deus, que sintetiza, na verdade, a uma profissão de fé ao Criador único e poderoso. 

Observando aqui como é apresentada a criação, vemos a terra como uma plataforma jogada sobre o abismo das aguas caóticas. O equilíbrio muito exile que sustenta a terra sobre o nada é aqui o sinal para a humanidade da Sagrada Escritura qual obra criadora e providente de Deus. As palavras iniciais também indicam quais as condições morais para poder ter acesso ao Templo de Jerusalém. Os fiéis entrando perguntam aos sacerdotes para serem admitidos, e eles respondem com uma lição que focaliza três exigências morais da Aliança. A primeira “mãos e coração” resume toda a ação do ser humano que deve ser voltado radicalmente a Deus e a sua Lei. 

Em seguida, tendo essa atitude, consequentemente “busca a face do Deus de Jacó”. Para melhor compreender essa linguagem bíblica, “buscar a face”, quer dizer “ir ao Templo” com verdade e sinceridade.  Desse jeito, as portas se “levantam” para os seres humanos que têm a consciência pura. Sendo assim, nos últimos versículos, narram que tendo esse espírito, esse comportamento puro dos fiéis, podem celebrar a entrada no Templo cantando, porque Deus se manifesta. Aliás, aqui, diz o salmo, que esse Deus é o “Senhor dos exércitos”, enquanto defende os seus fiéis. 

Nas minhas visitas aos doentes, uma certa vez, fiquei surpreendido pelo testemunho de uma senhora que tinha câncer. Ela tinha acabado de fazer uma quimioterapia e me dizia a satisfação de me acolher na sua casa. Com o rosto iluminado de alegria, agradecia a Deus por lhe ter enviado um sacerdote e receber as suas bênçãos. Demonstrou naquele momento esse seu total louvor ao Senhor sem se importunar com a gravidade da sua doença e tratamento. Sim, considerava que Deus é o seu verdadeiro médico e confiava plenamente Nele. 

Com essa fé, vivia a sua vida não de maneira dramática, mas com o sorriso na sua face. Demonstrou que não se preocupava com o amanhã, mas ela vivia o momento presente com grande alegria, porque Deus estava com ela e era muito maior que a fragilidade da sua vida física. É essa experiência de um Deus que defende os seus filhos que a vida se transforma. Não é mais temerosa, mas de confiança. Essa filha de Deus me deu esse testemunho: ‘Se Deus está comigo quem me poderá derrotar?’ Nada! E nem a pior doença desse mundo me pode abalar. Esse Deus que caminha com a gente consolida a nossa verdadeira vida que vai além do corpo que enxergamos. Tudo lhe pertencemos!

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net