04 de janeiro, 2016 - Belém

A verdadeira comunidade é solidária com os esquecidos


Nós não temos ideia de quantas pessoas hoje sofrem pelo abandono ou por estarem à margem da sociedade. Todas essas pessoas (e são muitas) precisam da nossa atenção, como cristãos e como Igreja de Jesus. Lembre-se como Cristo estava sempre próximo desse tipo de pessoas; como Ele ia ao encontro delas para lhes dar uma perspectiva de vida diferente; como Ele queria alimentar a esperança para todos. Dessa forma, Jesus nos mostrou como Deus pensava e queria que a vida dos seres humanos fosse plena e de felicidade. Deus não criou os excluídos, abandonados ou sofredores. Tudo isso é produto do ser humano. 

Jesus nos revela como resgatar essa situação de sofrimento, como ameniza-lo. Ele se aproximou dos excluídos do seu tempo. Não teve medo de tocar os leprosos para sará-los. Não teve medo de ir ao encontro de pessoas consideradas impuras ou pecadoras. Assim, ensina-nos que as comunidades e os fiéis devem ser próximos das pessoas. É essa uma das ações que caracterizam a fé em Deus: ser próximo dos outros. Uma comunidade cristã que se fecha nos seu recinto murário terá dificuldade de seguir Jesus, o Cristo. Viver a fé cristã é ter coragem de se expor a qualquer crítica, porque é fiel ao seu mestre Jesus. Não interessam as críticas, mas fazer o bem.

Nesse sentido, o nosso papa Francisco nos ensina: “Não se pode fazer comunidade sem proximidade. Não se pode fazer a paz sem proximidade. Não se pode fazer o bem sem aproximar-se.” E, assim, Francisco nos lembra como Jesus faz questão de estar próximo, por exemplo, do leproso: “Jesus poderia muito bem ter dito: ‘Sê purificado!’. Mas não: aproximou-se e tocou-o. E mais: no momento em que Jesus tocou o impuro, tornou-se também ele impuro. E este é o mistério de Jesus: toma para si as nossas sujeiras, as nossas impurezas. Paulo di-lo bem: ’Sendo igual a Deus, esvaziou-se a si mesmo’. Depois Paulo vai além: ‘Fez-se pecado. Jesus faz-se pecado’.

Que lição de vida para todos nós! Que lição para uma sociedade como a nossa que nos prega divisões, rupturas entre classes sociais; uma sociedade que prega e exulta pelo enaltecimento do “eu”; e o outro se torna um concorrente da vida que precisa derrota-lo. Que lição de vida de Nosso Senhor Jesus! E continua o Santo Padre com a narração do episódio do leproso: “Não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e apresenta a oferta prescrita por Moisés, para que lhes sirva de prova.” Além da proximidade, o Mestre quer também a inclusão para resgatar a dignidade da pessoa. 

Por isso, acrescenta Bergoglio: “Tantas vezes, penso que seja, não digo impossível, mas muito difícil fazer o bem sem sujar as mãos. E Jesus sujou-se. Proximidade. E depois vai para além. Disse-lhe: ‘Mostra-te aos sacerdotes e faz o que se deve fazer quando um leproso é curado’. A quem estava excluído da vida social, Jesus inclui: inclui na Igreja, inclui na sociedade … ‘Vai, para que todas as coisas sejam como devem ser’. Jesus nunca marginaliza ninguém. Marginaliza-se a si mesmo, para incluir os marginalizados, para nos incluir, pecadores, marginalizados, com a sua vida”. 

Portanto, temos aqui um exemplo de vida de como resgatar as pessoas que sofrem, marginalizadas, excluídas, abandonadas, esquecidas: seguir o exemplo de Jesus, o nazareno, que é de se tornar próximos para se comprometer e solidarizar com eles. Aqui está a grande questão: até que ponto sabemos ir ao encontro desses nossos irmãos? Nesse sentido, o papa Francisco nos questiona: “Eu sei aproximar-me?”. Tenho ânimo, força, coragem de tocar os marginalizados?” Uma pergunta para refletirem: “as paróquias, as comunidades, os consagrados, os bispos, os padres”, enfim, “todos nós”. 

Enquanto filhos e filhas de Deus, temos a maravilhosa obrigação de colaborar com o nosso Deus para reverter essa situação de miséria que se encontra a humanidade. Deus confia na gente e, por isso, precisamos arregaçar as mangas para se doar e saborear desde já a verdadeira vida de Deus. Por isso, apaixono-me cada vez mais do meu Deus, por confiar que a nossa vida tem perspectivas infinitas porque lhe pertence. Sem Ele, muitas vezes me pergunto: o que seria da minha vida e dos outros? Com Ele se reveste de tanta confiança e esperança que nunca paro de pensar e agir. Concluindo, repito com insistência: Jesus nos dá o testemunho de vida de se excluir para incluir. Creio que seja urgente viver esse testemunho entre nós para termos uma vida sem fim.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net