10 de dezembro, 2015 - Belém

A tentação pelo poder


Umas das tentações mais fortes que senti na minha vida foi a da ambição de ter poder. Por que isso? Para me sentir mais importante, mais poderoso. Quantas vezes me perseguiu essa tentação! Graças a Deus, pelas circunstâncias históricas e pela paixão pelo meu único Mestre Jesus, permitiram-me resistir a essa grave e perigosa chamada de “vocação humana”. Lendo e relendo nesses dias a homilia do papa Francisco, por ocasião da canonização dos beatos do dia 18.10.2015, pude constatar também o alerta do sucessor de Pedro para todos os cristãos sobre o perigo do poder. 

Para combater esse maior perigo, Francisco nos convida sempre a nos defrontar com o Mestre: “Jesus enche de novo sentido esta imagem, especificando que Ele tem a soberania enquanto servo; a glória, enquanto capaz de abaixamento; a autoridade real, enquanto disponível ao dom total da vida. Na verdade, é com a sua paixão e morte que conquista o último lugar, alcança o máximo de grandeza no serviço, e oferece-o à sua Igreja.” É aqui que se funda o verdadeiro poder e, por isso, o papa nos chama atenção dizendo: “Há incompatibilidade entre uma forma de conceber o poder segundo critérios mundanos e o serviço humilde que deveria caracterizar a autoridade, segundo o ensinamento e o exemplo de Jesus; incompatibilidade entre ambições e carreirismo e o seguimento de Cristo; incompatibilidade entre honras, sucesso, fama, triunfos terrenos e a lógica de Cristo crucificado. Ao contrário, há compatibilidade entre Jesus «que sabe o que é sofrer» e o nosso sofrimento. 

Assim no-lo recorda a Carta aos Hebreus, que apresenta Cristo como o Sumo Sacerdote que compartilha a nossa condição humana em tudo, exceto no pecado: «de fato, não temos um Sumo Sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, pois Ele foi provado em tudo como nós, exceto no pecado» (4, 15). Jesus exerce, essencialmente, um sacerdócio de misericórdia e compaixão. Experimentou diretamente as nossas dificuldades, conhece a partir de dentro a nossa condição humana; o fato de não ter experimentado o pecado não O impede de compreender os pecadores. A sua glória não é a da ambição ou da sede de domínio, mas a glória de amar os homens, assumir e compartilhar a sua fraqueza e oferecer-lhes a graça que cura, acompanhá-los com ternura infinita, acompanhá-los no seu caminho atribulado.” 

Como afugentar essa tentação, portanto, em todos os âmbitos da vida? É muito simples. Primeiro, precisamos saber identificar o que leva a esse ardente desejo de poder. Creio que o poder seja uma ilusão de vida. Quanto mais uma pessoa é vazia ou se sente demais atraída pela vida do mundo, procura e ambiciona preencher o seu ser com cargos e poderes (fazer carreira). Fundamenta-se em estrutura de poderes para dar mais sentido ao poder que ambiciona. Por isso, a ambição do poder requer cada vez mais poder e se justifica na busca de uma construção de estruturas que possam caracterizar esse poder. 

Geralmente, o poder sempre se associa ao dinheiro. Quem gosta de poder, necessariamente é atraído pelo dinheiro, gosta demais de dinheiro, é possuído por ele. Assim sendo, para resistir a essa famigerada tentação, precisa dar mais razões profundas à própria vida pelos conhecimentos. Geralmente, o perseguidor de poder é mais diplomático do que sábio. Quem não conhece, porém, acha que tudo sabe e assim favorece essa praga. Segundo, essa ilusão da vida não permite um verdadeiro diálogo e a pessoa aflita desse mal se torna necessariamente autoritária. 

Eu me pergunto: quando uma pessoa não sabe dialogar com outras pessoas que tem contato direto, como é que ela consegue dialogar com Deus que não vê? Uma pessoa autoritária, ambiciosa pelo poder, terá muita dificuldade de fazer uma experiência do Deus de Jesus Cristo. Imagine se isto acontece na dimensão eclesial! Seria uma negação do próprio estado religioso. Nesse sentido, o Santo Padre Francisco não cansa de chamar a atenção dos clérigos para não cair nessa tentação. 

Acrescenta o papa: “Cada um de nós, enquanto batizado, participa a seu modo no sacerdócio de Cristo: os fiéis leigos no sacerdócio comum, os sacerdotes no sacerdócio ministerial. Assim, todos podemos receber a caridade que brota do seu Coração aberto, tanto para nós mesmos como para os outros, tornando-nos «canais» do seu amor, da sua compaixão, especialmente para aqueles que vivem no sofrimento, na angústia, no desânimo e na solidão.” É sempre Jesus que nos liberta, mas precisamos ser transparentes com Ele, deixar-nos levar por Ele e não, nesse caso, lhe antepor a nossa ambição do poder. Poder do mundo não comunga com a vocação de cristãos. Qualquer que seja! O poder, disse o papa, não dá a verdadeira felicidade.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net