03 de julho, 2014 - Belém

A sabedoria dos provérbios


A sabedoria popular nos ensina a prestar atenção ao uso das palavras. Elas têm um grande peso no convívio social. Podem prejudicar as pessoas ou podem prestigia-las; podem feri-las ou promove-las; podem instigar às coisas más ou às coisas boas. Quem não se lembra, por exemplo, dos ditados 'má palavra fere como espada', 'palavra que muito ferve, o sabor perde', 'a palavra e a pedra solta, não têm volta', 'mais fere a má palavra que espada afiada'? Pois bem. A cultura popular é rica dessas frases que nos ajudam a compreender as consequências do uso das palavras. 

Divirto-me, se assim posso dizer, ao pesquisar no meio do povo o jeito de falar, como as pessoas transmitem suas mensagens. Esse tipo de linguagem me parece uma maneira bem sensível para respeitar a sensibilidade de cada um. Creio, firmemente, que é também muito importante resgatar essa sabedoria dos provérbios do povo. O termo 'provérbio' vem do latim 'proverbium', palavra composta da pro (a favor) e verbum (palavra), que representa uma sentença bem breve de origem popular e bem difundida; e contém uma norma, um ensino tirado da experiência. 

Muitos provérbios têm uma difusão de caráter universal e frequentemente se apresentam em formas parecidas com povos mais diferentes. Porém, vejo, às vezes, que, com tanta facilidade, se perde essa memória popular. Quero assim colocar aqui mais ditados como boa comunicação: 'As palavras mostram o que cada um é', 'a palavra é como a abelha: tem mel e ferrão', 'o boi se pega pelos chifres, o homem, pela palavra'. Essas máximas nos ajudam a ponderar a nossa fala, a melhorar o nosso relacionamento com os outros e, sobretudo, ter um autodomínio nas nossas conversas de humanos.

Veja mais essas: 'Palavra fora da boca, é pedra fora da mão', 'mais apaga boa palavra que caldeira d'água', 'palavra fora da boca, não volta atrás', 'palavras ditas, pancadas dadas'. Não faltam provérbios de outras culturas ou línguas que são reveladores de grande sabedoria. Naturalmente, gostaria somente de lembrar alguns exemplares da cultura chinesa ou da cultura oriental: 'Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida', 'os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem', 'o homem comum fala, o sábio escuta, o tolo discute'. 

Quanta sabedoria em todas essas palavras. Creio que se a gente se lembrasse de tantos e tantos ditados como esses poderíamos nos comunicar melhor e conviver com um melhor entendimento. De fato, todos os dias para explicar conceitos ou pensamentos bem ligeiros e exaustivos as pessoas utilizam muitas vezes provérbios e ditados. É verdade também que cada pessoa é ligada à sua própria terrinha, à sua casa, às suas famílias que possuem muitos provérbios. É através deles que se pode resgatar a cultura oral dos próprios antepassados que representam uma sabedoria antiga, mas sempre atual.

A descoberta desses antigos valores culturais pode permitir um diálogo construtivo entre as gerações, superar obstáculos de incompreensões entre jovens e idosos. Os provérbios enfrentam de maneira simples todo tipo de argumento ou tema, que tem como objetivo principal a educação. Essa sabedoria popular imbuída de todo tipo de sentimentos se resume em ditados que nunca chegam a ser vulgares, embora, às vezes, usem, friamente, substantivos ou verbos poucos oportunos para render mais eficiente as mensagens que transmitem. 

Assim sendo, a vulgaridade não é, portanto, no jeito de dizer as coisas, mas somente no pensamento das pessoas pobres de espírito que a recepciona. Creio que todo mundo saiba ou reconheça que os provérbios no passado foram pontos de referência de grandes valores que tantas gerações se inspiraram. Hoje em dia, podemos dizer as mesmas coisas? As novas gerações seguem os novos modelos de vida que vem, sobretudo, da mídia, que muitas vezes não são propriamente educativos. A preocupação hoje é que essas maneiras populares de se comunicar desapareçam. Por isso, seria importante tentar preservar esse tipo de linguagem. 

E a escola poderia ajudar a manter viva essa tradição cultural oral. Resgatando esse tipo de tradição cultural, se mantém vivo o passado que sustenta o presente donde se constrói o futuro do povo. Concluindo, reafirmo que o uso dos provérbios pode favorecer a educação na vida cotidiana do povo.

*Cláudio Pighin, sacerdote, jornalista italiano naturalizado brasileiro, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net