31 de julho, 2014 - Belém

A paz promove a humanidade


Nosso mundo está cada vez mais dilacerado pelas guerras. Dor, lágrimas, sofrimento e prostração fazem parte da rotina de muitos povos espalhados no planeta e sobretudo agora na Palestina. Gente que não encontra um abrigo, uma segurança para se deitar e, além do mais, não sabe se vai levantar. É a guerra. O conflito destrói, não tem piedade. Arrasa moradias e vidas. O ser humano prostrado geme perante tamanha crueldade. Entretanto, ainda há pessoas que defendem a necessidade da guerra para se conquistar a paz. Guerra, segundo alguns, produz paz. O pior, ainda, é que há concepções ideológicas que apostam no conflito armado como progresso e promoção econômica. 

Com certeza, a guerra incentiva a indústria bélica e isso, naturalmente, dá muito dinheiro. Mas, para quem vai isso? Não, certamente, para os pobres, e, sim, para os poderosos que administram toda a indústria beligerante. Não só: esses poderosos determinam ou influenciam de maneira decisiva a opinião das pessoas ao ponto de chegarem a torcer pela guerra. Cuidado! Tudo isso é muito perigoso. Uma coisa é certa: não é a guerra, mas, sim, a paz que promove o progresso humano. A guerra, de jeito nenhum, promove paz. As escolas ensinam a história das guerras. De fato, temos uma biblioteca farta sobre isso; mas sobre a paz, muito pouco. 

Eu me lembro de quando estudei, desde o primário até o ensino superior, os professores falavam muito sobre a história das guerras, mas quase nada sobre a paz. É verdade também que as guerras promovem descobertas cientificas. Porém, é bom salientar que a paz promove mais ainda e as mais importantes. A paz é a base para o crescimento cultural da sociedade. Pode ser que alguém alegue, no entanto, que grandes personagens da história da humanidade eram favoráveis à guerra, como promoção da sociedade. Infelizmente, esse tipo de leitura é manipulada por um ponto de vista de interesses subjetivos. 

Se esses famosos personagens abriram espaços para a guerra, deve-se ler a obra toda deles para entender o contexto dessas frases que, no final, ressaltam os auspícios pela paz. Nós estamos assistindo no cenário mundial o pacifismo que, com certeza, não é um fenômeno somente dos nossos dias. Por exemplo, na época das guerras na China, Confúcio sentava na casa do chá, próximo a entrada da cidade, dando conselhos aos governantes sobre como obter ou preservar a paz. Temos muitas personagens famosas ao longo dos séculos que se opuseram às guerras, mas foram silenciadas. A história foi escrita por quem? 

Com certeza, por aqueles que a venceram, e não somente eles, mas também por aqueles que planejaram as guerras. A respeito disso, temos o ensinamento de Erasmo de Rotterdam, que se opôs ao ensino de Maquiavel sobre como tornar a guerra uma arte e que inspirou generais e governantes para isso. Porém, Erasmo, ao contrário de Maquiavel, fez quase um tratado pacifista, em que, por exemplo, denuncia os custos das guerras e propõe diálogos e mediações de paz. A essa altura, eu me pergunto: será que o passado nos pode ensinar algo para perseguir a paz? Creio que o ensino de Erasmo pode ser útil para isso. 

Um maior conhecimento dos pró e contra a guerra poderia ajudar a evita-la. Todo mundo viu a questão do conflito no Iraque, e não só naquele país. Com maior discernimento e aprofundamento, não podia ter sido evitada? Além do mais, hoje é necessário que os governantes envolvidos nessas situações beligerantes considerem também a opinião pública, que pode ajudar a ponderar melhor como se abster do conflito. É urgente, também, criar uma nova ordem mundial e para isso é necessário mudar, converter-se. E o ensinamento do Mestre Jesus, que também experimentou as dores da guerra, tem algo para nos orientar nesse sentido. 

Não podemos esquecer que o século XX foi banhado de sangue, quase 80 anos de guerra sobre 100. Não devemos esquecer nunca isso. Talvez as pessoas até que se acostumaram com isso, tanto que não percebem mais essa tragédia humana. Em um mundo global como o nosso, temos que alcançar soluções globais. Além de impedir que surjam as guerras, precisamos reduzir a pobreza, a desigualdade e proteger o meio ambiente. Precisamos de menos manipulações por parte do poder, menos machismo intelectual por parte dos históricos, mais colaboração internacional e mais educação sobre a paz. Quando estoura uma guerra, por exemplo, na mídia aparecem profundos conhecedores de estratégias de guerra e nada daqueles que falam de paz. Isso é um grande erro.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista 

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net