07 de agosto, 2014 - Belém

A graça de ser padre


A Igreja Católica Apostólica Romana celebrou essa semana a vocação do sacerdote. O padre tem um papel determinante no serviço ao povo de Deus. Eu não virei padre, mas me tornei um padre. Por que falo assim? Porque desde criança sempre busquei a Deus, conforme as etapas de minha vida. Essa busca me ajudou, por etapas, a compreender o que fazer da minha vida. Lembro, como se fosse hoje, quando tinha 11 anos e estava em um dia de fevereiro, às 14 horas, encostado na parede da torre campanária da igreja, onde morava na Itália, a espera de colegas para jogar futebol. Era um dia nublado e frio. De repente, apareceu um carro e parou próximo de mim. 

Do veículo, desceu um sacerdote que veio ao meu encontro e, sem mais nem menos, me convidou a entrar no seminário diocesano de Pordenone. Eu olhei para ele e, depois de alguns instantes, disse que topava. Corri para a minha casa e disse para meus pais o que tinha acontecido, e que queria entrar no seminário. Assim, iniciou-se minha caminhada de discernimento sacerdotal. Houve, portanto, uma chamada e, ao mesmo tempo, uma resposta. Tudo isso sem muitos rodeios ou hesitações. Os longos anos de educação que se seguiram me ajudaram a firmar àquela chamada inicial: de criança se tornou adulta. 

Cheguei à ordenação sacerdotal com o símbolo da cruz estampado nas minhas lembranças daquele dia: foi em 24 de junho 1978. A cruz de Jesus é que marca toda a minha vocação. E ficou claríssimo em mim também que os tempos que correram depois da ordenação foram conquistas para confirmar a minha ordenação. Não nego que tive também grandes desafios para ser fiel ao chamado. Justamente, esses desafios aprimoraram minha vocação. Meu serviço a Deus não foi nem é fácil, não. Primeiro, porque nenhum de nós viu Deus. Segundo, como posso ter certeza de que aquilo que eu faço é sempre vontade divina? 

Aqui entra a minha obediência à Igreja, que me ajuda a entender tudo isso. Eu não consigo entender sozinho. De fato, quando me encontrei com o papa Francisco, logo lhe disse que eu queria saber qual é a vontade de Deus na minha vida. E ele, como o Pedro aqui entre nós, poderia me dar uma resposta, uma garantia. Aquele abraço demorado e àquelas palavras firmes me confirmaram na caminhada missionária. Quando saí da capela Santa Marta, no Vaticano, parecia estar tão leve, com a sensação de levitar do solo. Enxergava cada vez melhor a minha vida de sacerdote. Tinha somente certezas e não dúvidas. 

A minha vocação, é verdade, passou por momentos de grandes abalos, mas sempre olhando para frente. Estava bem claro em mim que meu sacerdócio não era fruto de um momento mágico da vida, mas que precisava construí-lo a cada dia da minha peregrinação terrena. Nunca pensei em fazer carreira eclesiástica, embora tivesse a chance de ter alimentado isso, mas sempre tentei fazer da minha vida uma escuta constante de Jesus Cristo, meu único Mestre. Por isso, peço sempre ao meu Deus que me ensine a contar os meus anos para ter cada vez mais confiança Nele. Também não nego que os bens materiais, podem nos prender e desviar nossa atenção do seguimento de Jesus. 

O segredo é ter como se não tivéssemos nada, não se deixar escravizar pelos bens que passam, mas se deixar apaixonar pelos bens que não passam. Essa lógica, naturalmente, não é compreendida por todo mundo, ao contrário, pode ser até criticada ou fofocada. Mas, a busca por esses bens eternos me consolida na minha missão, e que faço questão, inclusive, de compartilhar com os outros. Por isso, não posso ser fiel ao meu Deus, se não me coloco a disposição dos outros, se não servir os outros. Não posso, de jeito nenhum, viver a minha vocação sozinho, separado dos irmãos. Devo caminhar junto, para testemunhar minha busca de Deus.

Compartilhar o que Ele quer da gente. Como disse o nosso papa Francisco: 'Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada em ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos'. É isso aí! Quero fazer da minha vida sacerdotal uma doação aos outros sem ter medo de apanhar e ser incompreendido por estar parado nas minhas seguranças institucionais de consagrado. Essa certeza de estar intimamente ligado ao meu Deus é que me dá força de caminhar, não dar importância ao que os outros podem fofocar sobre as minhas opções de vida. Feliz dia dos pais.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net