28 de janeiro, 2016 - Belém

A dificuldade de concentração das pessoas


Como é difícil ficar concentrado hoje! Um dia desses, uma jovem me falou, com tristeza, que não conseguia de jeito nenhum se concentrar. Ela tentou de tudo, mas não teve êxito. Na cabeça dela, contou, chegam mil coisas e pensamentos que se entrelaçam. Então, a jovem me questionou o porquê não conseguia se concentrar no tal pensamento ou propósito, senão por pouquíssimo tempo. Realmente, esse é o nosso grande desafio. De fato, o que mais aconselho, sobretudo para os jovens, é fazer o exercício da concentração, tentando esquecer tudo. 

Estudos modernos nos revelam como as pessoas têm um restrito limite de concentração. Inclusive, existe um ditado popular e que muitos gostam de utilizar: “ter memória de peixinho dourado”. Que quer dizer isso? Esse peixe de água doce, foi provado, embora que não lembre nada, tem uma capacidade de concentração de nove segundos. Sabendo que as pessoas, agora, têm uma capacidade de concentração de oito segundos, resta evidente que esse peixe nos supera, embora só por um segundo. Um absurdo! 

Quem nos confirma tudo isso é uma pesquisa realizada pela Microsoft no Canadá. Os peixinhos dourados nos superam, por um segundo, na questão da concentração. A atenção deles é superior a nossa. Mas por que isso? O ser humano está perdendo concentração. Justamente essa pesquisa revela que a culpa de tudo isso é a tecnologia moderna. A nova tecnologia, dispositivos portáteis e mídias digitais, incrementaram tudo isso. Essa pesquisa feita no Canadá envolveu duas mil pessoas, sobretudo jovens. Foi uma pesquisa de perguntas e jogos on-line onde avaliaram a capacidade de concentração dos 2000 interpelados. 

Além disso, para completar o estudo, fizeram exames de eletroencefalogramas com 200 voluntários dos pesquisados, sempre canadenses, monitorando a atividade cerebral. Conclusão: a capacidade de concentração diminuiu em relação ao passado. Só para se ter uma ideia, no ano 2000, segundo os pesquisadores, a capacidade de concentração de um ser humano era em média de 12 segundos e em 2013 passou para 8 segundos. Baixou de maneira sensível! No entanto, o peixinho dourado foi constatado que fica 9 segundos em concentração. 

Os pesquisadores acreditam que a causa de tudo isso foi o grande impacto dessa nova mídia digital. A invasão desse mercado de Smartphone, tablet, computadores e mídias digitais favoreceram um bombardeamento de informações e notícias que, na maioria das vezes, não tem uma ligação uma com a outra. Pulam pra cá e pra lá incentivando assim o poder de desconcentração das pessoas. E eu sempre afirmei e, continuo falando e escrevendo, que essa explosão da nova tecnologia pode nos prejudicar, se não tivermos uma competente preparação no uso dela. 

Já pensou, um peixinho dourado nos supera em poder de concentração? Isto nos deve levar a uma imediata e séria reflexão a respeito. Os resultados da pesquisa revelam que, ao longo desses últimos anos, o ser humano progride na desconcentração. Com certeza, há pessoas que questionarão sobre esses resultados, mas uma coisa é certa: por que não se pensa bastante antes de agir? Justamente porque somos ausentes em concentração. Pode observar e acompanhar a conduta da pessoa no dia a dia e constatar a fragilidade de concentração. 

E quantas reclamações, nesse sentido! Os pesquisadores canadenses descobriram que o ser humano hoje quer se informar sempre mais. Tem sede de notícias. Com tudo isso, ele consegue, com muita habilidade e velocidade, discernir e cataloga-las e, sobretudo, repassa-las aos outros. Esse tipo de ação implica uma diminuição de concentração e, ao mesmo tempo, mais atividade em contemporânea. A consequência de tudo isso, o nosso cérebro, parece, se não se envolver em consumir mais informações, se sente frustrado. 

Assim, a vontade de possuir cada vez mais novas tecnologias é também uma resposta a essa avidez de informações, como preenchimento do nosso ser. Isto, creio, que esse comportamento se torne bem cedo um estudo para a psicologia, sociologia e a medicina. É evidente que o novo ser humano marcado pelo celular sempre nas mãos o caracteriza com um ser vivo, dinâmico e desejoso de ilimitadas interações. Isto o leva a ser mais presente com os outros, porém, pouco presente em si. Ele está mais fora de si que dentro de si. Contudo, isso leva a uma vida de pouca e limitada concentração. Eu creio que as pessoas devem resgatar essa dimensão para enriquecê-la na sua plenitude humana. Isto lhes confere mais seguranças e definições na vida.

*Claudio Pighin, sacerdote, jornalista italiano naturalizado brasileiro, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net