09 de abril, 2015 - Belém

A corrupção nos afasta de Deus


Estamos percebendo o quanto a corrupção já prejudicou e ainda prejudica nossa sociedade. Quanto mais se analisa a vida das instituições e das pessoas mais emerge essa praga destruidora da convivência fraterna. Esse fenômeno triste, generalizado no mundo, gera injustiças, desuniões, pobrezas, violência, entre outras. Hoje nós nos concentramos somente nas corrupções que a mídia focaliza, mas me pergunto: se as lentes das câmeras e os microfones fossem direcionados para cobrir o cotidiano de cada um de nós quantas corrupções se descobririam? 

Essa praga não é isolada a alguns setores da sociedade, mas se alarga em toda a vida dela. Eu chego a dizer que se existe isso é porque é fruto de um comportamento generalizado de pecado na vida do povo. Nesse sentido, não podemos pensar que esse fenômeno não nos pertence, mas precisamos arregaçar as mangas e começar desde os núcleos familiares e comunidades a reverter essa desgraça da corrupção. E quem nos ajuda em tudo isso é o nosso querido papa Francisco, que nos diz o seguinte: “A corrupção dá alguma felicidade, dá poder e faz-te sentir satisfeito de si mesmo: não deixa espaço para o Senhor, para a conversão. Esta palavra ‘corrupção’ hoje nos diz muito: não só corrupção econômica, mas corrupção com muitos pecados: com o espírito pagão, com o espírito mundano. A pior corrupção é o espírito da mundanidade.”

Eu creio, também, que a impostação da nossa estrutura social, com grandes aglomerados urbanos, favoreça esse tipo de conduta de vida. Naturalmente, esse é um simples pontapé para pudermos levantar as causas da corrupção, e, por isso, precisamos aprofundar cada vez mais as causas e não se limitar a identificar somente os corruptos. A corrupção se combate mais radicalmente pelas causas. E a identificação dessa praga na nossa sociedade deve ser conduzida com a participação de todo mundo; um trabalho de mutirão. 

Numa sociedade como essa, todos somos corruptíveis e todos incorruptíveis. Continuando, o santo padre Francisco aponta como exemplo duas grandes cidades citadas no livro do Apocalipse e no evangelho de Lucas, Babilônia e Jerusalém, que não acolheram Deus. Ele diz: “Babilônia cai por corrupção; Jerusalém, por distração, por não receber o Senhor que vem salvá-la. Não sentia a necessidade de salvação. Tinha as escrituras dos profetas, de Moisés e isso era-lhe suficiente. Mas eram escrituras fechadas! Não deixavam lugar para a salvação: tinha a porta fechada para o Senhor! O Senhor batia à porta, mas não havia disponibilidade para recebê-lo, ouvi-lo, deixar-se salvar por Ele. E cai…” 

Interessante como o papa associa corrupção com a distração. Se formos analisar bem, podemos descobrir que também a distração é falta de concentração nas próprias responsabilidades de cidadão. A cidade em si favorece um protagonismo individual, custe o que custar. Por isso, a Igreja insiste que não podemos ser cristãos sozinhos, temos que promover uma dimensão comunitária da vida cristã. Com isso, a Igreja pretende ser uma promoção da verdadeira sociedade. Essas duas cidades bíblicas revelam uma semelhança com as nossas: “corruptas e autossuficientes ou distraídas”. 

E quem nos ajuda a sairmos disso é sempre o nosso Mestre Jesus que nos exorta a erguer a cabeça e não se deixar amedrontar por essas pragas, pelos pecados da humanidade. O nosso papa acrescenta: “Quando pensamos no fim, com todos os nossos pecados, com toda a nossa história, pensamos no banquete que gratuitamente nos será dado e levantamos a cabeça. Nada de depressão: esperança! Mas a realidade é má: há muitos, muitos povos, cidades e pessoas que sofrem; tantas guerras, tanto ódio, inveja, mundanidade espiritual e corrupção. Sim, é verdade! Tudo isso ruirá! Mas peçamos ao Senhor a graça de estarmos preparados para o banquete que nos espera, com a cabeça sempre erguida”. 

Como Jesus teve paciência e muita paciência quando enfrentou a paixão e morte de cruz para nos salvar, assim nós temos que ter paciência para eliminar a praga da corrupção. Tudo isso gera esperança de vida, contrapondo-a à depressão e ao desinteresse geral, porque a vida prevalece à morte. Corrupção é sinônimo de morte e, no entanto, todos queremos vida. Não somos vocacionados à corrupção, mas sim para a vida. A busca de Deus na nossa vida se opõe firmemente a devoção de corrupção.

*Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net