08 de abril, 2015 - Belém

Uma saída para a crise


De acordo com os bem informados repórteres Valdo Cruz e Marcio Falcão, da Folha de São Paulo, Lula teria recomendado ao governo ser mais proativo nos entendimentos com o PMDB. A principal crítica do grupo de Lula é à orientação do Palácio do Planalto a respeito do impasse criado pela expectativa de nomeação de Henrique Eduardo Alves no lugar de um aliado de Renan Calheiros. O Planalto teria mandado o PMDB se entender sobre o assunto.

Lula recomenda o entendimento com o PMDB a partir do diagnóstico correto de que a crise é política e o governo está desidratado. Sem resolver a questão política, as demais iniciativas vão patinar. Inclusive as medidas de ajuste fiscal que dependem do Congresso.

Parlamentares ligados a Dilma e ao Palácio entendem que a saída da crise é a criação de uma agenda positiva com declarações e iniciativas mostrando que o governo não perdeu a condição de criar boas notícias. Acreditam que podem isolar o governo da crise política e marchar rumo à recuperação da popularidade perdida.

O que Lula aconselha é mais correto. Sem resolver a questão política, o governo ficará isolado e sem condições de avançar em sua agenda. Não basta criar fatos positivos se a crise política continuar poluindo o noticiário.

Por causa da inapetência política e crise de popularidade, o governo não tem condições de liderar uma agenda de recuperação de imagem sem promover a união de sua base política. É algo mais do que elementar que as seguidas derrotas no Congresso deveriam ter tido um efeito pedagógico na forma de fazer política.

Existe a suspeita consistente de que a sugestão de criação de uma agenda positiva parte de setores do governo que não querem maior aproximação com o PMDB. Temem ser desalojados de suas posições e insistem em saídas que tangenciam a questão central.

Na prática, existem apenas dois cenários para a crise. Dilma ficar comandando um governo “fim de feira”, com capacidade operacional limitada apenas quatro meses depois de iniciado. Ou se recupera e fortalece o presidencialismo de coalizão a partir de entendimento com o PMDB e demais aliados.

Por que com o PMDB? Pelo fato de que os demais partidos da base também estão desmobilizados ou enfraquecidos. Ou não têm densidade suficiente para estabilizar o governo. O PSD gera desconfiança nos demais por conta de sua manobra na tentativa de recriar o PL, uma espécie de partido “arrastão”, para atrair parlamentares e desidratar os demais. É uma iniciativa polêmica e que pode ser barrada na Justiça pelo caráter óbvio de ser um ardil para burlar a lei. O PP está com sua liderança comprometida no petrolão. O PT é odiado pelos demais e com uma limitadíssima capacidade de influência. Os demais (PDT, PRB, PROS, PCdoB) são pequenos.

Dilma não tem saída: ou se compõe com o PMDB ou ficará isolada e dependente de uma improvável recuperação de sua popularidade. Sem revitalizar a sua relação com o partido e renovar a coordenação política, o governo ficará navegando sem leme e sem rumo em um mar político turbulento.

No entanto, o jogo do governo é esperar o PL se viabilizar, esvaziar os demais partidos, inclusive setores do PMDB, e engendrar uma composição com o PSD em um blocão que, eventualmente, pontificaria na Câmara dos Deputados junto com o PT. É uma jogada muito arriscada que testa no limite a capacidade política de um governo que tem sido tradicionalmente infeliz em suas iniciativas.

Murillo de Aragão é cientista político.