22 de julho, 2015 - Belém

Uma crise multishow (O trem desgovernado da crise)


Imaginem uma peça em que o enredo ocorre simultaneamente em vários palcos. Pois bem, temos uma situação assim em Brasília. A crise tem aspectos institucionais, partidários, ideológicos, éticos e pessoais. Estamos em uma espécie de briga de faca em quarto escuro no qual todo mundo briga com todo mundo. Salva-se a oposição, até mesmo por não estar se posicionando agressivamente. E ela ainda não tem lanterna para iluminar o quarto escuro e apontar rumos. 

A briga é autofágica. O “lulismo” foi gradativamente destruído pela presidente Dilma Rousseff e acabou em uma grande confusão. A política é “meio” PMDB e a economia é “meio” PSDB. Tudo temperado por uma rara e peculiar combinação da tradicional incompetência política do governo com a crise econômica e fiscal e, ainda, com os efeitos devastadores e tóxicos da Operação Lava-Jato. O pior de tudo é a incapacidade do governo de fazer as leituras corretas a tempo e a hora. Temos uma crise de relacionamento entre o governo e o Congresso; entre o Congresso e o Judiciário; entre o Judiciário e o Executivo; entre os aliados da base política; entre os membros da equipe econômica; entre os ministros e o Palácio do Planalto; entre a Casa Civil e a Coordenação Política; e, ainda, entre Dilma e o expresidente Lula. Ambos se dedicam ao esporte de falar mal um do outro pública e diariamente.

Fica claro que, pelo tamanho e pela diversidade da crise, o governo não tem a menor condição de resolvê-la sem descer do salto alto e buscar o entendimento com todas as forças políticas relevantes e com as principais instituições. O governo deve se reinventar para conseguir, o que é incerto, chegar a seu termo. Não há, ainda, essa percepção. Desde 2013, Dilma começou a perder o controle da agenda e nunca mais conseguiu retomá-la. Ela é passageira em um trem desgovernado. 

A política é a única forma de resolver a crise instalada. Por meio dela se consegue aprofundar o ajuste fiscal, assimilar os efeitos da Lava-Jato e assegurar a devida independência dos Poderes. Mas é justamente na arte de fazer política que o Palácio do Planalto apresenta sua mais grave deficiência, compensada pela presença do vice-presidente Michel Temer. Sem ele, o governo já teria naufragado. O Planalto deve reconhecer que não tem mais o controle dos fatos e que a sua antiga hegemonia foi destruída por sua profunda incompetência e pela arrogância política, demonstradas até o posicionamento de Michel Temer como coordenador político. Aliados foram abandonados.

Compromissos não são cumpridos. A disposição para conversar continua insuficiente. O diálogo com a sociedade foi relegado a uns poucos. A presidente vive em um castelo, isolada do mundo e com pouco acesso às notícias e análises. Afinal, ela só lê o clipping do clipping do clipping, filtrado de tudo que possa aborrecê-la e tirá-la do seu equilíbrio emocional. Erroneamente, avalia que as turbulências da crise são golpes de vento ou tempestades em copo d’água e não decorrentes de uma soma inacreditável de erros praticados desde 2011.

Caso o governo conseguisse minimamente estabilizar as expectativas, poderia retomar o controle parcial da agenda e caminhar para tempos menos turbulentos. É hora de Dilma Rousseff decidir se vai tratar de governar com o que ainda tem de apoio ou se destruir administrando heranças malditas dela e dos outros.

O impeachment, antes improvável, se viabiliza a cada dia que passa. A saída que se apresenta no momento não é a saída da crise. É apenas uma alternativa para que o governo comece a funcionar melhor. A reinvenção implica fazer uma ampla reforma ministerial dos quadros mais essenciais que não correspondem ao momento político. Não é difícil identificar que nomes devem sair. O duro é saber quem quer entrar na fogueira.

Murilo de Aragão é cientista político.