05 de maio, 2015 - Belém

PMDB em crise existencial ameaça ajuste


Durante anos, Michel Temer esteve à margem da operação política. Tanto Henrique Eduardo Alves quanto Renan Calheiros condenavam o tratamento dado ao partido e ao vice-presidente. Enquanto isso, a coordenação política do governo sofria no Congresso. O entendimento entre o Palácio do Planalto e o PMDB no Congresso era visto com essencial para dinamizar as ações do governo.

Após a crise dos noventa dias do Dilma 2, a coordenação política foi entregue ao PMDB. Era uma solução mais do que esperada. E que foi saudada por todos como a decisão mais do que certa. Porém, no momento em que chegou ao poder, o partido entrou em crise existencial. Os três polos que geram a força do PMDB vivem em permanente tensão. Enquanto Eduardo Cunha e Michel Temer estão se entendendo razoavelmente bem, Renan Calheiros bate firme em Dilma, no PT, na distribuição de cargos e em Temer como coordenador político.

O que era uma disputa institucional entre o Congresso e Executivo e uma resposta à voracidade do PT e à incompetência da coordenação política transformou-se em autofagia. Uma briga interna que comprova a máxima: quando tudo está ruim, pode ficar ainda pior. A primeira consequência é a desmoralização do partido como grande fiador da governabilidade, papel que atribuiu a si próprio sempre que aderia ao governo de plantão. O PMDB alardeou seu desempenho como estabilizador das expectativas ao longo da redemocratização. E, sem dúvida, o partido foi essencial em muitos momentos delicados da política nacional. Com a crise, o PMDB corre o risco de ter seu perfil rebaixado.

A segunda sequela é o abalo da liderança de Michel Temer, que sempre foi o inconteste líder do partido. Continua sendo, mas não é absoluto como o foi. Temer foi capaz de estabilizar, durante muitos anos, as diversas correntes do partido. No entanto, desde o Dilma 1 já existiam setores insatisfeitos que se concentravam mais na Câmara dos Deputados. Hoje a contestação parte do Senado de Renan Calheiros.

Se a experiência falha, isso retira do governo o mapa de saída da crise política. Diagnóstico comum a todos os que acompanham as dificuldades da presidente Dilma é que o governo tinha que melhorar sua relação com o Congresso para governar. Pois ficou claro que a nomeação de Temer ainda não alcançou tal objetivo. Pelo contrário. O apoio ao governo caiu na Câmara e é incerto no Senado.

O desentendimento revela que o PMDB não está preparado para o sucesso e terá muitas dificuldades para construir uma narrativa poderosa para as próximas eleições nacionais em 2018. Com tamanha sensibilidade e tantas suscetibilidades, como poderá construir uma candidatura presidencial?

É evidente que a culpa não é só dos faniquitos do partido. Todos sabem que a designação de Temer como coordenador político só dará certo se ele tiver o poder da caneta. No momento, além de enfrentar o mau humor de Renan, há a sensação de que a Casa Civil trabalha contra Temer e assistiria com prazer as dificuldades do vice-presidente. 

O governo Dilma pode superar tudo isso. O PMDB também. Pelo lado do governo, o desafio é estabilizar a relação com o PMDB e acelerar a nomeação de aliados. Apesar da crítica de Renan ao aparelhamento, senadores da base aliada já encaminharam nomes para o segundo e terceiro escalões do governo. 

O governo precisa encontrar uma narrativa pós-crise, espécie de cartilha para a saída do momento ruim.

Murillo de Aragão é cientista político.