03 de maio, 2016 - Belém

O fim da história


Naquela noite amena de domingo, quando a Câmara dos Deputados aprovou a admissibilidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff, tanto o ex-presidente Lula quanto o vice-presidente Michel Temer tinham certeza de que o resultado era mais do que previsível. Era certíssimo. Lula, por saber que cometera o maior erro político de sua longa vida pública, ao escolher Dilma para sucedê-lo. Temer, por saber que governo nenhum resiste a tamanha soma de erros. Não houve um irmão, como no caso de Fernando Collor, que, de repente, por acaso, saiu contanto as peripécias presidenciais nas páginas da revista Veja. O acaso foi a própria Dilma. Jamais deveria ter sido escolhida.

Com impressionante regularidade, Dilma Rousseff solapou todas as suas possibilidades de ter sucesso como presidente da República. E, com o seu retumbante fracasso, enterrou o sonho das esquerdas brasileiras. Vai desalojar milhares que vivem de verbas públicas por meio de convênios. Causará maciço desemprego entre os ocupantes de cargos de confiança. Abalará a receita das centenas de pessoas que trabalham em conselhos de estatais. Muitas delas nem eu nem você sabemos que existem.

A ironia das ironias é que Dilma conseguiu fazer o que a oposição jamais teve ou teria competência para fazer: destruiu o lulopetismo. Arrasou a competitividade do PT e, provavelmente, acabará com qualquer possibilidade de Lula voltar a ser presidente da República. É evidente que ela não tem culpa sozinha. Outros fatos contribuíram para a derrocada. O julgamento do mensalão e a instalação da Operação Lava Jato, que desvendaram as entranhas do capitalismo tupiniquim, foram decisivos. E revelaram também os equívocos cometidos nas relações com o mundo privado.

Porém, quando Lula se encantou com aquela ministra séria, assertiva, ríspida e compenetrada, que sabia de tudo e era ótima nas apresentações, foi o começo do fim. A possibilidade de ser colocada na Presidência adoçou a dura Dilma. A doença que teve de enfrentar, e até mesmo a solidariedade em torno do fato, parecia que amoleceria a alma de ferro da candidata.

Foi por pouco tempo. O poder, literalmente, subiu à cabeça. Não apenas da dela. Mas de alguns outros também, que demoliram o lulopetismo com doses cavalares de inconsciência. O número 1, sem dúvida, foi Arno Augustin, magistral artífice das mágicas contábeis. Uma espécie de Mister M das contas públicas.

Lula bem que tentou. Mas, fragilizado pela própria doença e pela retumbante popularidade de Dilma, nada pôde fazer. O “volta Lula” veio tarde. Ele tentou emplacar Henrique Meirelles no Ministério da Economia em 2013. Avisou que o Conselhão tinha de funcionar e que as reuniões do conselho político com líderes e presidentes de partidos deveriam ocorrer semanalmente. Avisou que as emendas dos parlamentares ao Orçamento, mesmo da oposição, deveriam ser em grande parte executadas. Avisou tudo. Não serviu para nada.

Dilma será afastada do governo e a ele não deverá voltar. Foi inacreditavelmente incompetente para pilotar a mais poderosa Presidência da República do mundo ocidental. Afinal, o presidente do Brasil é dono de 50% do sistema financeiro nacional, emprega discricionariamente mais de 30 mil pessoas, usa e abusa de medidas provisórias e executa o Orçamento da União a seu bel-prazer. Enfim, o presidente da República do Brasil, por nossas omissões e ignorância, tem todos os instrumentos para ser um ditador benevolente. Nem assim ela conseguiu se manter. 

Murillo de Aração é cientista político.