15 de julho, 2015 - Belém

Impeachment: cenários, incertezas e indagações


Por circunstâncias profissionais, minha carreira como analista político começou poucos anos antes do impeachment de Fernando Collor. Pouco depois da publicação das bombásticos reportagens de Luiz Costa Pinto, então editor da Veja, sobre as peripécias do governo Collor, minhas considerações para meus clientes eram as de que o impeachment era muito provável, ainda que fosse um processo inédito e complexo no país.

Baseava minha opinião no fato de que Collor tinha contra si o Congresso, a imprensa, a opinião pública e os movimentos sindicais. O seu passivo político acumulado nos anos anteriores era grande. E, mesmo tendo constituído um ministério “ético” e reforçado a coordenação política, seu governo estava fadado ao fim prematuro. Havia incompetência política, fracasso econômico, e crise ética - marcas também dos tempos atuais.

Collor ainda estava absolutamente desgastado pelas ações deletérias de PC Farias, que achacava empresários. Sem contar o perfil histriônico de sua presidência. Mas, na época, existia uma clara solução no radar: o vice Itamar Franco na presidência. Ainda que tenha estado no velho PL, não o que virou um balcão de negócios e mudou de nome para PR, Itamar tinha uma longa tradição no PMDB e era uma figura respeitada e respeitável.

Para simplificar, o processo de impeachment teria um começo e um fim razoavelmente previsíveis. Não é o que ocorre no momento. Apesar dos elementos econômicos, políticos e éticos estarem presentes como no processo de Collor, as circunstâncias ainda não são as mesmas. As soluções que se apresentam para o país são complexas e variam conforme o início do processo.

Cada uma delas poderia arranjar o xadrez político de uma forma. Por exemplo: qual seria a posição do PMDB frente a um processo que anularia a eleição de Dilma Rousseff e Michel Temer? Qual seria a posição do PSDB se Temer assumisse o governo sem fazer uma composição com a oposição?

Há outras indagações. Por exemplo: muitos consideram que o ideal para a oposição é ver o PT purgar seus pecados nos próximos anos e ser derrotado em 2018, a fim de que o capítulo “PT no poder” se encerre de forma definitiva. Há ainda quem considere que o impeachment de Dilma e a ocorrência de novas eleições poderiam reorganizar as forças do PT e trazer Lula de volta à presidência em uma eleição “emocionalizada” pela cremação política da presidente.

Nesse sentido, para a oposição, o tiro sairia pela culatra. Em contraponto, outros dizem que esperar três anos para completar o ciclo de desidratação do governo seria muito tempo. E daria a Dilma a oportunidade de recuperar a popularidade a ponto de se transformar em uma eleitora decisiva em 2018.

Algo semelhante ao que ocorreu com Lula em 2005. Outro cenário emerge de especulações: sentindo-se desconfortável com o PT, Dilma gradualmente se isolaria e construiria sua governabilidade com o PMDB, visando salvar seu governo e seu currículo. Esta é uma cena complexa e difícil de acontecer, mas não impossível, já que a dinâmica judicial da Lava Jato pode destruir diversas lideranças e rearranjar o xadrez.

Assim, no momento em que Brasília respira o ar pesado de uma das crises políticas mais graves dos últimos tempos, as únicas certezas são a de que nada será como antes e a de que tudo pode acontecer. Inclusive nada.

Murilo de Aragão é cientista político.