28 de abril, 2015 - Belém

Duas moedas com a mesma face


Em política, não há amizade que dure nem inimizade que perdure. DEM e PTB estão discutindo uma fusão. Ranier Bragon, da “Folha de S. Paulo”, publicou matéria no domingo, 26, muito interessante sobre a possibilidade da fusão. A mensagem de Ranier é a de que, no final das contas, o DEM é o herdeiro da UDN, e o PTB, a continuidade do velho PTB. 

A UDN tinha Carlos Lacerda como expoente e inimigo figadal de Vargas. O velho PTB foi uma criação de Vargas e tem nele o seu líder e mártir. Sessenta anos depois de seu suicídio e do atentado contra Lacerda, os dois partidos - herdeiros das tradições de ambas personalidades antagônicas - podem ficar juntos. 

A questão é recorrente na política brasileira. No Rio Grande do Sul, onde se degolavam adversários políticos, chimangos e maragatos - que antes se matavam - se entenderam para apoiar Getúlio Vargas. Este, que era chimango, chegou, pasmem, a usar um lenço vermelho, cor dos maragatos, a caminho do Rio de Janeiro para tomar posse após derrubar Washington Luiz. 

Paulo Maluf, inimigo número 1 do PT e de Lula, se juntou ao PT para apoiar, entre juras de amor e respeito, a recente eleição de Fernando Haddad para prefeito de São Paulo. Em 2014, Maluf declarou apoio a Dilma Rousseff e disse que, perto de Lula, ele era comunista! Maluf é um paradigma. Não tem espinha que não se vergue ao peso do interesse e do poder. 

Em 2008, Aécio Neves (PSDB) e Fernando Pimentel (PT) fizeram uma aliança para eleger Marcio Lacerda (PSB) prefeito de Belo Horizonte. A aliança foi contestada pelos partidos de Neves e Pimentel, mas funcionou sem problemas. Anos depois, Aécio e Pimentel voltaram à inimizade. Agora, Pimentel faz uma devassa na gestão do ex-governador Antonio Anastasia, aliado de Aécio. 

Lula, em 2006 e 2007, chegou a considerar um movimento político que atraísse Aécio Neves, amigo irmão de Eduardo Campos, para o PSB e fosse o candidato à sua sucessão em 2010. Imaginem a confusão. Aécio, caso raro na política nacional, resistiu e preferiu lutar pela vaga no PSDB contra José Serra. 

Em Brasília, Joaquim Roriz, padrinho da maioria dos principais líderes do DF nos últimos tempos, traiu e foi traído por todos eles, a saber: José Roberto Arruda, Tadeu Filipelli, Gim Argello, Bendito Domingos, Paulo Octávio, Luiz Estevão. Uma das mais famosas eminências da política local, Hélio Doyle, hoje com o governador Rodrigo Rollemberg, esteve - em algum momento - com quase todos os outros. 

Amizade e inimizade na política são uma questão bastante simples de entender e difícil para o cidadão comum aceitar. A simplicidade está no fato de inimigos políticos serem amigos pessoais e, não raro, aliados políticos serem inimigos. Os interesses pessoais, em geral de natureza econômica, se impõem diante de qualquer desavença, pois, em geral, é o dinheiro que move a política. No PSDB, por exemplo, as inimizades sempre foram a tônica. Todos sempre falaram mal de todos e o ciúme sempre foi generalizado. Muitos nunca perdoaram o acaso ter levado FHC, um acadêmico, à Presidência.

Agora o PMDB vive seus tempos de PSDB. Michel Temer, Renan Calheiros e Eduardo Cunha estão desperdiçando a melhor oportunidade do partido de exercer o poder por conta de picuinhas e atritos de importância relativa frente a um projeto maior. 

Os acontecimentos relatados mostram, apenas, que amizade e inimizade são duas moedas com as mesmas faces: a imagem do interesse coroada pelo poder.

Murillo de Aragão é cientista político.