06 de maio, 2014 - Belém

Artigo: Armadilhas do mundo virtual


Sobre o mondo cane da internet, lembro-me de uma frase de Martha Medeiros: 'Não fale, não conte detalhes, não satisfaça a curiosidade alheia. A imaginação dos outros já é difamatória que chegue'.

É por isso que muitos estão abandonando o Facebook. A exposição excessiva e a falta de critério na escolha de quem pode acessar as informações geram problemas de imagem pessoal. Mas não é só isso. O mundo virtual assusta ainda por outros motivos: pela voracidade com que se consomem informações escandalosas e pela virulência dos ataques feitos por anônimos. 

Em artigo recente sobre o mondo cane da internet, listei as notícias mais lidas no site G1. Praticamente todas se relacionavam com algum tipo de desgraça, revelando o apreço do internauta pelos textos que tratam de misérias. No mesmo artigo, mencionei aqueles que têm prazer doentio em agredir, como se o próprio fracasso existisse na contrapartida do sucesso do outro. 

Quanto ao tema dos ataques encobertos pelo anonimato, lembro que já escrevi sobre isso em 2010, a propósito do uso da internet nas eleições. Dizia então que 'o uso da internet na disseminação da informação teve no anonimato o seu pior e mais perverso aspecto. Nesse sentido, alinho-me a Arthur Schopenhauer, que dizia que o anonimato serve para tirar a responsabilidade daquele que não pode defender o que afirma'. 

O ator Bruno Mazzeo, em comentário publicado no jornal Extra, disse ficar impressionado com a capacidade de as pessoas se odiarem pela internet. Como tantos outros, ele é vítima de agressões gratuitas pelo simples fato de existir como artista e celebridade. 

O mesmo ódio se revela nos comentários em sites e blogs, quando muitos, por meio de nomes falsos ou apelidos, denigrem pessoas e instituições pelo simples prazer de falar mal. Além de, na maioria das vezes, castigar sem dó nem piedade a gramática. 

Creio que, no Brasil, tanto o consumo colossal de besteiras quanto as agressões de anônimos ao que está exposto na internet estão ligados à falta de educação, à sensação de impunidade e aos instintos baixos que habitam os seres humanos. E que afloram, em uma espécie de retrocesso civilizatório, pelo desapreço a valores éticos e morais. 

Muitos são doentes que se satisfazem em comentar o que o outro disse sem adentrar o mundo das ideias, campo onde não conseguem transitar. E como não conseguem debater em alto nível, buscam o campo da agressão como forma de saciar o vício solitário e virtual de caluniar. Veem o mundo a partir da ótica dicotômica do gostar ou não gostar, sem, no mínimo, respeitar as diferenças e as peculiaridades.

Os tempos atuais, com a profusão de meios de expressão, trazem a popularização do falar mal, na imprensa marrom e sensacionalista e nos comentários em blogs e sites. Por outro lado, os intolerantes lançam mão de mecanismos de censura. 

No Brasil, onde estamos na infância da democracia, nem a libertinagem 'esculhambativa' nem a censura são opções para os males virtuais de nosso tempo. No campo real, a Justiça deve atuar em resposta às agressões. O bom exemplo deve ser mostrado e os crimes do mundo virtual não podem ficar impunes. 

Já no campo ideal a questão é mais complexa. E demanda tempo. A educação e a responsabilidade são os caminhos para que a baixaria não impere no mundo virtual. 

A integração positiva entre as leis e sua aplicabilidade e a melhora na consciência dos deveres e direitos do cidadão são o melhor caminho.