26 de janeiro, 2016 - Belém

A retomada do Conselhão


Nos últimos quatro anos, políticos como Lula, Aloísio Mercadante, Michel Temer, o ex-ministro Joaquim Levy e, mais recentemente, Jacques Wagner insistiram com Dilma Rousseff para que retomasse a frequência das reuniões do pleno do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).

Apenas com a possibilidade de naufrágio político, Dilma decidiu aceitar o óbvio: reconstituir sua representação e prometer reativá-lo em mais uma das tentativas de relançar um governo que ainda não começou.  

Durante quase nove anos fiz parte do Conselhão. Encerro minha participação com a certeza de que foi uma das experiências mais interessantes em minha vida. Em especial, no segundo mandato de Lula quando pude assistir ao rico debate que se desenvolvia entre personalidades dos mais diferentes segmentos da sociedade. Em um ambiente de crise internacional, muitas iniciativas do governo foram propostas pelo Conselhão e/ou debatidas com seus membros.

Participei de discussões que instruíram leis destinadas às áreas da microempresa, educação, regras trabalhistas para os canavieiras, questões ambientais, entre muitos outros temas.

A independência do organismo no período em que participei foi outro ponto alto. Como cientista político e analista de conjuntura, critiquei muitas das inúmeras trapalhadas do governo. Mesmo contra a opinião dos medíocres e pseudo-ideológos de plantão, fui mantido no conselho por um longo tempo, onde livremente exerci meu direito de opinião. Apesar da patrulha de sempre.

Essa é a essência do conselho: a pluralidade e a diversidade de opiniões e a possibilidade de entendimento entre contrários. Foi, sem dúvida, a lição que aprendi no tempo na convivência com os integrantes do CDES. Mesmo funcionando com muitas limitações institucionais, sob a condução precária dos últimos ministros que o lideraram e do inacreditável desinteresse da presidente, o CDES sobreviveu.  

Como uma instância de debate e reflexão, o Conselhão pode servir para testar as iniciativas do governo, recolher muitas sugestões, além de promover o encontro entre setores que normalmente não conversam. Nada disso aconteceu desde meados do mandato passado. Tomara que o governo realmente acorde para necessidade de dialogar com a sociedade e utilize o Conselhão, entre outros meios, para compatibilizar as práticas de governo com os reclamos da sociedade e o pluralismo político.

Nos dois mandatos de Lula, o CDES foi um importante instrumento de diálogo com a sociedade e objeto de interesse de muitos países. Tive a oportunidade de participar de alguns eventos internacionais nos quais constatei o respeito que a iniciativa despertava mundo afora. Espero que volte a ter o respeito que conquistou.

Agora, Dilma retoma o Conselho após quase cinco anos de desprezo e desinteresse. Nesta semana, o Conselhão volta a se reunir com a participação de novos membros. Vamos aguardar para ver se será apenas um palco para o governo exibir seu parco repertório anticrise ou se poderá dar sinais de que realmente está interessado em dialogar com a sociedade. 

Retomar o Conselhão no início de 2015 teria sido o adequado. Modernizá-lo, dar mais dinâmica ao seu funcionamento e estabelecer um processo de troca de experiência e informações mais intenso teria sido útil para minimizar o ambiente de sinistrose que se instalou no país. Porém, antes tarde do que nunca.

Murillo de Aragão é cientista político.