21 de abril, 2015 - Belém

A crise e autocrítica no PT


A prisão do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, causou mais um forte abalo na imagem do partido. Trata-se do segundo tesoureiro da legenda detido num escândalo político. O primeiro foi Delúbio Soares, durante a crise do Mensalão, em 2005. Segundo a Folha de S. Paulo, o PT teme que as ações dos investigadores da Operação Lava Jato acabem por “inviabilizar’’ o funcionamento do partido e até por levar à cassação do registro da legenda.

A troca de comando na Secretaria de Finanças (tesouraria) é a quinta nos últimos dez anos. Nesse período, além de Vaccari, afastado do cargo pelo PT após sua prisão, a cadeira já foi ocupada por Delúbio, José Pimentel e Paulo Ferreira.

Preocupado com a possível contaminação desse episódio, o Palácio do Planalto avalia que foi um equívoco não ter afastado Vaccari do cargo antes da prisão, já que ele vinha sendo investigado pela Operação Lava Jato.

O que mais preocupa o governo é a denúncia contra Vaccari, acusado de usar a gráfica Atitude, vinculada à CUT, com o objetivo de recolher de forma ilegal doações de uma empreiteira com negócios na Petrobras. Está sendo investigado ainda se a campanha do ano passado contou com dinheiro do Petrolão.

Não por acaso o ministro da Defesa, Jaques Wagner (PT), declarou que “a presidente está muito distante disso, até pela sua história pessoal e da sua vida política. Essa estratégia de tentar colocar pecha de envolvimento dela não cola”. Conforme podemos observar, o governo já tenta blindar Dilma Rousseff, caso as investigações confirmem a suposta utilização de recursos ilegais na campanha da reeleição.

Mesmo com o afastamento de Vaccari do cargo, o estrago na imagem do PT é difícil de ser contornado, já que esse episódio pode “colar” ainda mais a imagem da corrupção do partido.

Segundo pesquisa Datafolha realizada no dia 12 de abril entre manifestantes que ocuparam a avenida Paulista, em São Paulo, 33% citaram a corrupção como principal motivação para os protestos.

A prisão de Vaccari aumentou a tensão interna. A corrente Mensagem ao Partido, principal oponente da tendência Construindo um Novo Brasil (CNB), majoritária no diretório nacional, se move no jogo de poder petista.

Prova disso foi a tentativa da Mensagem de tirar a tesouraria das mãos da CNB. Mesmo que não tenha obtido sucesso - o ex-deputado federal Márcio Macedo (PT-SE), da CNB, foi escolhido para suceder Vaccari na tesouraria -, a Mensagem mostra que utilizará a atual crise para defender a necessidade de renovação no comando do partido.

Como o PT tem seu congresso marcado para junho, em Salvador (BA), os embates internos prometem ser intensos. Detentora do comando da sigla desde 1995, a CNB, chamada de Campo Majoritária até a crise do Mensalão, está novamente sob pressão.

Sendo alvo de investigações da Polícia Federal, de reportagens da imprensa e da atuação da oposição, que já defende a tese do impeachment para desgastar ainda mais o PT, além de disputas internas de poder, os petistas vivenciam uma crise que pode ser considerada mais grave que a do Mensalão.

Com alguns falando em necessidade de “refundação” e outros argumentando que o partido vive um período de “fim de ciclo” no exercício do poder, após 12 anos de governos petistas no país, a incógnita é se o PT terá condições de diagnosticar com precisão a atual crise a fim de responder corretamente aos fatos que abalam sua imagem. Em especial, fazer tão necessária autocrítica de seus equívocos.

Murillo de Aragão é cientista político.