27 de agosto, 2013 - Belém

Artigo: Longe se vai a Primavera brasileira



Quando explodiram as manifestações de junho no país, afirmei, para desagrado de muitos, que não se tratava de um episódio sistêmico e reestruturante que desembocaria em uma transformação profunda da sociedade brasileira.

Minha afirmação se baseava nos seguintes fatos: a) as manifestações tinham agenda bastante variada; b) os protestos foram alavancados pela mídia eletrônica e terminaram refluindo na intensidade quando virou bagunça; c) as condições estruturais do país não eram ideais, mas estavam longe de ser péssimas; d) as manifestações não contavam com interlocutores claros nem líderes facilmente identificáveis.

Ao final de agosto, as manifestações perderam o foco e a intensidade e continuam contaminadas por agendas variadas. No Rio de Janeiro, além da participação de grupelhos de anarquistas, o crime está promovendo a sua revanche às ocupações das favelas e ao combate direto ao tráfico. Em São Paulo, são novamente os radicais de plantão que mobilizam jovens de classe média interessados em participar e questionar o modelo. Em outros lugares, as agendas são pontuais.

É interessante observar que o brasileiro estava desacostumado a se manifestar e que as autoridades tampouco sabem como lidar com a questão. Essa inexperiência resulta em exageros de lado a lado, permitindo que radicais, que representam minúsculas minorias da população, se aproveitem para tumultuar.

As condicionantes que evitaram a deflagração de uma "Primavera brasileira" prevaleceram. As manifestações de junho não se transformaram em revolução. Ficaram mais para "Ocupe Wall Street", um movimento. Por outro lado, não foram episódios estéreis nem inodoros. Derrubaram a popularidade da presidente Dilma Rousseff, pulverizaram a popularidade de Sérgio Cabral e afetaram os demais políticos de ponta, além de beneficiar a ex-senadora Marina Silva em seu projeto rumo ao Palácio do Planalto.

Uma eleição que seria relativamente fácil para Dilma Rousseffe em 2014, vai ser mais complicada. Porém, não apenas por culpadas manifestações que colocaram o mundo político em suspenso. Mas pela irritação que sua administração desperta no mundo político, no empresariado e no mercado financeiro. Para piorar, a economia teima em não crescer.

No entanto, mesmo que lentamente, a presidente vai recuperando sua popularidade e parte do favoritismo para a disputa eleitoral do ano que vem. A mais recente pesquisa do instituto Ibope, realizada de 15 a 19 de agosto, apontou que a avaliação positiva do governo Dilma cresceu de 31% para 38% (7 pontos). A avaliação regular permaneceu em 37%, e a negativa caiu de 31% para 24% (7 pontos).

Outro dado importante é que Dilma registrou uma recuperação de popularidade nas regiões Sudeste (24% para 36%) e Sul (28% para 29%), que tradicionalmente são redutos mais críticos em relação ao governo federal. Mais do que isso, foi justamente no Sudeste e no Sul que os protestos de junho foram mais intensos.

Em meio à recuperação da popularidade da presidente, seus principais adversários na disputa à Presidência da República enfrentam problemas. A ex-senadora Marina Silva ainda está envolvida com a criação de seu partido, o Rede Sustentabilidade; o PSDB passou a reviver as divergências dos últimos anos entre o senador Aécio Neves (MG) e o ex-governador José Serra (SP); e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), ainda enfrenta os desafios de tornar-se conhecido nacionalmente e de construir uma aliança competitiva.

Apesar do arrefecimento dos protestos, seu saldo é positivo. Revela que a sociedade não está completamente alheia. Revela também que o mundo político pode ser punido.