23 de julho, 2013 - Belém

Artigo: Nada será como antes



Uma das características das últimas eleições foi o papel pouco influente dos chamados formadores de opinião – aqueles que muitos identificavam como sendo a opinião pública, e outros, com deboche, diziam que era a opinião publicada.

Basicamente, a crença era de que o governante poderia ter ligação direta com o povo sem passar pelos formadores de opinião. Tal postura baseava-se no fato de que as classes mais populares estavam satisfeitas com o governo e não se importavam com o que pensavam os mais ricos e educados.

O governo Lula e a administração Dilma se sustentaram na ligação direta, muitas vezes esnobando a grande mídia. Temas como o mensalão foram exaustivamente explorados sem grandes danos à popularidade de ambos.

Dois fenômenos ajudavam a explicar isso: 1) o bom estado da economia e a influência dos programas de distribuição de renda do governo federal criavam uma espécie de blindagem das críticas; 2) cada vez mais os brasileiros emitem suas opiniões baseados em contatos com seu meio social e menos influenciados por "especialistas".

No entanto, algo aconteceu. Uma coleção de equívocos, entre eles a desconstrução midiática do governo e a inabilidade da administração em se relacionar com os formadores de opinião, detonou o processo que abala as estruturas políticas do Brasil.

Quem são os formadores de opinião? São aqueles que consomem a imprensa escrita e os canais de TV por assinatura. São aqueles que estão nas universidades públicas e privadas. Que conseguem enxergar benefícios e deficiências no lulismo. Há também setores ressentidos e derrotados nas últimas eleições que torcem contra. Há ainda aqueles que ficam indignados com o aparelhamento da máquina pública, com o excesso de impostos e a precariedade dos serviços públicos.

Enfim, uma nova classe de gente passa a se manifestar e a criar espaços políticos que deveriam ter sido ocupados pela oposição partidária. O Brasil globalizado que usa intensamente as redes sociais deu as caras e se formou como os novos formadores de opinião.

No dia 9 de julho, Rubens Barbosa, presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp, resgatou um texto escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em abril de 2011 na revista Interesse Nacional. Lá, o ex-presidente dizia: "Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de ‘classe C’ ou de nova classe média. A imensa maioria destes grupos — sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista — está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc. É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente".

Não são maioria, mas nenhuma revolução ou grande reforma é liderada por maiorias. Tampouco é certo dizer que essa nova classe vai liderar revoluções. As manifestações são mais reformistas do que revolucionárias. Muitos dos formadores de opinião sabem que houve conquistas importantes e que estas devem ser preservadas.

Finalmente, o surgimento de uma nova classe de formadores de opinião implica novas formas de fazer política, principalmente, de se comunicar de forma segmentada com a sociedade. Implica ter um governo menos arrogante e mais aberto. Implica haver mais interesse pelo que a sociedade civil está pensando.

O certo é que, amanhã, nada será como antes.