24 de abril, 2015 - Belém

A Belém de Parreiras


Foto: Reprodução/Antônio Parreiras, Antônio Parreiras, Entrada do Bosque Municipal (Belém), 1905, Óleo/tela, 50,5 x 91cm. Acervo do Museu de Arte de Belém

Estudando sobre as exposições de arte no Pará de fins do século XIX e início do XX, lidei com muitos nomes de pintores não paraenses que viajavam para Belém para expor e comercializar seus trabalhos: Oscar Pereira da Silva, Benedicto Calixto, Carlo de Servi e Antonio Fernandez são alguns nomes.

Em uma dessas viagens chegou a Belém o pintor fluminense Antônio Parreiras, que viu no Pará uma boa chance de mercado. Paisagista que era, não tardou a reproduzir a cidade e recebeu várias encomendas, muitas de Antonio Lemos, à época intendente de Belém.

Sobre a vinda de Parreiras ao Pará, tem um trecho de uma crítica de arte feita por Júlia Lopes de Almeida que gosto muito, publicada no jornal A Província do Pará, de junho de 1905, momento que Parreiras chega à capital paraense pela primeira vez. Dizia a escritora que, conversando com Parreiras, de visita a sua casa, perguntou: "Porquê não vai ao Pará?", carregando a pergunta do desejo de ver em suas telas paisagens que de outro modo não lhe seria possível ver - segundo palavras da própria crítica.

Esse pequeno trecho sinaliza como a circulação de imagens e representação das cidades também se fazia acontecer através do trabalho artístico e de seu deslocamento. Logo, foi a partir das idas e vindas de artistas e de suas produções que a imagem foi quebrando barreiras como a da distância e das fronteiras entre os Estados. Podemos, então, dizer que esses artistas em viagem têm boa parcela de responsabilidade na circulação de paisagens locais pelos quatro cantos do Brasil.

Foto: Reprodução/Antônio Parreiras, A Catedral de Belém, 1905, Óleo/tela 65,7 x 54,5cm. Acervo do Museu de Arte de Belém

Das encomendas feitas por Lemos a Parreiras, hoje podemos ver alguns frutos no Museu de Arte de Belém (MABE). São oito telas que nos mostram mais que a paisagem de Belém, nos mostram a paisagem que Parreiras criou para Belém, carregada de sua bagagem cultural e artística, de sua percepção pessoal e do olhar de pintor estrangeiro que era em terras paraenses. Juntamente com outras imagens de tempos e autores diferentes, essas paisagens compõem um repertório diversificado de representações de Belém do início do século passado.

E ao ver essas telas não posso deixar de fazer digressões e me perguntar: que lugares Parreiras pintaria hoje? Qual Belém e de que forma a deixaria registrada para ser, daqui a algum tempo, a cara de Belém das primeiras décadas do século XXI?