14 de dezembro, 2015 - Belém

Perdemos a capacidade de nos indignar! Estamos ficando chatos!


Existem certos textos que remetem a uma análise muito mais profunda de quem vai produzi-lo, este sem dúvida me fez refletir muito em cada palavra antes de fazê-lo, não pelo assunto em si, porém, pela forma de abordagem do mesmo, pois como dizia George Bernard Shaw: 'A sabedoria dos homens é proporcional não à sua experiência, mas à sua capacidade de adquirir experiência' e como temos percebido essa capacidade tem sido pífia ao longo das últimas décadas. 

Percebo no Brasil uma incapacidade há muitos anos que as pessoas se indignem. Antes era por coisas maiores, como desrespeitar pai e mãe, um assassinato, pois as menores antes de eu vir ao mundo já haviam sido perdidas, mas hoje vejo claramente que não, nossa população, em sua enorme maioria, não se indigna por nada. Se somos assaltados, a frase: 'levaram apenas o celular' é comum e explica algo como se fosse lavar os pés após jogar bola em algum campo de várzea, não percebemos mais o risco que corremos por termos sidos assaltados.

As pessoas passaram a entender de maneira distorcida a expressão 'carpe diem', aproveite o dia é sua tradução do latim, poucos sabem que esta frase vem de um poema de Horácio que tenta persuadir Leuconoe em não pensar na hora de sua morte, mas em momento nenhum ele o manda ser irresponsável, mas juntamos esta expressão com o momento ostentação que vivemos, ou seja, é tudo agora e não tem depois e, mais que isso, o importante sou eu e ponto final! Coletividade? O que é isso?

Vivemos um momento caótico no Brasil, como ouso dizer, nunca vivemos, pois, hora tínhamos problemas econômicos, mas sociedade e governo tinham credibilidade, em outro momento o problema era na governabilidade, mas os dois outros compensam e hoje temos problemas quase que nos três, aí é encruzilhada! 

Vou citar três casos para ser didático. Tivemos o desastre de Mariana em Minas Gerais, desastre previsível e palpável por normas simples de segurança e desrespeito a Lei 13.334/10, ou seja, uma lei recente, mas como tantas outras 'que não colou'. Mesmo assim, após o ocorrido e quase 14 mortes, que eu sinceramente creio que sejam muitas mais, começou um movimento para selecionar culpados, como a empresa, o presidente FHC (este eu sabia pois até por eclipse solar, ele é culpado), o processo de privatização, enfim, tantos impondo a culpa e outros mais tirando o 'corpo fora', mas os culpados foram: a empresa e a falta de fiscalização em todas as esferas, o município que enquanto recebia impostos 'ficava calado', o governo estadual idem e o federal que precisava fiscalizar e não o fez, isso independe de processo de privatização, que o máximo que fez foi adiar o problema, pois reduziu o roubo deslavado na Vale, que foi feito na Petrobras e que aumentou em 10x a geração de emprego e renda, tão divulgada pelos governos e tão feitas pelas empresa. Culpar a privatização é o mesmo que culpar Cabral pela corrupção na Petrobras, é, além de falta de inteligência, desperdício de tempo, mas sigamos.

Veio o atentado em Paris e fotos em redes sociais com a bandeira francesa e começou a briga: qual a pior tragédia? Algo também sem 'pé nem cabeça', como diziam os antigos, na verdade a tragédia na terra azul foi mais divulgada por ser aquela cidade há décadas a preferida dos turistas no mundo afora e quem já foi lá (sonho de muitos) se sente um pouco cidadão, então, obviamente vai ter mais cobertura da imprensa mundial. Aí vem um monte de crítica nas redes sociais, porém, muito pouco em doações para auxiliar as famílias, ou seja, estamos nos tornando 'chatos de galocha', como se dizia nos anos 50 em referência ao cara que mesmo de galocha que nos fazia pensar que estava muito ocupado com o trabalho pesado ele ainda perturbava quem estava ao lado. 

Tudo é motivo para reclamar, para criar polêmica, vale lembrar que o mundo mudou muito nos últimos 20 anos, muito mais que nos 500 anteriores e ainda vai mudar mais, então querer ir contra isso e se postar na frente do rio de lama de Mariana e achar que vai conseguir conter, ou seja, é falta de inteligência. 

Por último quero citar como exemplo o caso das manifestações de alunos da rede pública de São Paulo, que de maneira correta no que tange ao assunto da movimentação das escolas sem qualquer consulta e análise mais criteriosa, o que já seria péssimo pela falta de democracia e ainda pior pela parte pedagógica e da logística educacional (mudar alunos de escolas sem se preocupar com distâncias enormes e sem transporte público de qualidade), porém, péssima do ponto de vista do envolvimento nas causas sem ser por questões político-partidárias, ou seja, os alunos, sempre eles, que mudaram tantos momentos do Brasil hoje são marionetes de partidos e organizações agindo agora como o apoio de artistas que embarcam no momento em que percebem que a repercussão midiática teve grande abrangência e estes querem ganhar cliques em suas páginas pessoais nas redes sociais ou ganhar algum financiamento governamental que não faz mal para ninguém, 'né' verdade?

Cadê esses estudantes querendo tirar os políticos envolvidos em escândalos? Só que protestar de verdade, para tirar todos sem exceção, não sou favorável ao lado direito ou esquerdo das convicções econômicas, políticas e sociais, sou favorável ao lado do certo e do bem-estar, mas estamos vendidos, chegamos na encruzilhada maldita do 'faço certo e fico para trás? Faço errado e deixo um monte de otários para trás?'. Aí lá vem os chatos, dizerem: 'mas podemos fazer o certo e não ficarmos para trás!'. Perdoem minha falta de crença em histórias de um mundo encantado e perdoem ainda mais meu excesso enorme de sinceridade, mas fazer certo e andar no mesmo passo esquece! Não existe! Ou até existe, mas numa vida muito perto da frugalidade e do aceitar tudo, pois se essa pessoa quiser algum direito não terá de maneira natural e aí vem uma enorme indagação: 'como eu educo meu filho ou filha? Para pensar como o mundo pensa ou como ele precisa atuar no Brasil?'. Um dia ouvimos que a esperança venceu o medo, estamos prestes a ouvir que a vencedora daquela batalha está prestes a morrer. 

Fiquem na paz e lembrem-se: pouca conversa e resultado sempre dá certo!