30 de janeiro, 2017 - Belém

A conta chegou! E agora?


 Eu esperei pelo menos três semanas nesse início de 2017 para poder escrever esta coluna, sempre acompanhando atentamente os acontecimentos aqui e lá fora e ouvindo e lendo opiniões das mais diversas correntes, origens e formas de análise. De maneira simples até frugal chego à conclusão que a conta chegou.    

Vou começar falando pela famigerada reforma previdenciária passando aqui pelo nosso fantástico sistema carcerário nacional. Ver uma centena de presos sendo mortos e decapitados em menos de 30 dias do novo ano choca realmente pelas cenas de barbárie humana, mas voltemos um pouco antes. Em 1995 lembro que em uma reunião com o ministro da previdência da época em um encontro de agentes de previdência privada, alguns questionamentos que tive oportunidade de fazer não eram respondidos, ou quando foram mostravam um vazio desesperador, seja pela ineficiência da reposta, seja pelo desconhecimento dos atos que o então ministro mostrava ter. Estamos nós 22 anos depois e o rombo nas contas da previdência chegam há 146 bilhões de reais em 2016, 74% maior que em 2015 e com previsão de R$ 186 bilhões em 2017. O agravante nessa situação é o rombo na previdência urbana de R$ 46,6 bilhões que desde de 2010 dava resultado positivo e não piorava a situação, ocorre que com quase 15 milhões de desempregados, menos pessoas passaram a contribuir e o que eram ruim, ficou pior e quando se fala em mudar as regras a grita é geral, mas agora não tem o que possa ser feito, caso contrário em poucos anos o dinheiro recebido da previdência será de igual valor de um de jogo de tabuleiro.

Quando leio que isto é culpa do governo atual, tenho uma mistura de descrédito e de risos, pois não creio que ninguém com mínimo de inteligência creia efetivamente que isto está correto. A crise previdenciária tem mais de 30 anos e se agravou muito nos últimos 20 anos, portanto englobando todos os governos do período, esse agravamento da previdência nas cidades mostra claramente que se não forem feitos estímulos para criação de empregos e para abertura de empresas, valorizando o empresário o país não sairá jamais dessa UTI financeira que está e nesse sentido muito pouco tem sido feito.

Esta semana criou-se a nova regra dos cartões de crédito, com possibilidade de rotativo por 1 mês e depois oferta de crédito com juros menores, apesar do caráter pedagógico existente na medida, me pergunto porque o governo não limita os juros em 5 ou 6 vezes a taxa Selic? Ou limita os juros do crédito ao consumidor e para empresas em 3 ou 4 o valor da mesma taxa básica? O brasileiro, igual os Estados, está com dívida, mas precisando de crédito, se não “rolarem” o que está em aberto e conseguirem equacionar novamente empréstimos para subsidiar a manutenção da máquina iremos bater em 18 milhões de desempregados e aí realmente nossa previdência vai por águas a baixo, como se diz popularmente.

As medidas adotadas são pífias e ridiculamente mal analisadas e planejadas, não conseguimos fazer cenários para as medidas que serão tomadas, não conseguimos reunir especialistas em torno de assuntos sérios, tudo é sempre voltado para a próxima eleição, sempre foi assim e talvez melhore quando unificarem os pleitos eleitorais em 1 só para todos os cargos, que além de ser mais barato, torna tudo governável por mais tempo, mas ninguém faz! 

Lembro que em 2010 numa universidade americana eu tinha como colega de classe uma profissional do grupo do empresário Eike “X” Batista, seu cargo me chamou atenção: gerente de inteligência e de novas oportunidades. Não que na área de inteligência de negócios, cuja sigla em inglês é BI, não fosse comum, mas minha pergunta era:Como ter novos negócios se não tinha nenhum? Não haviam entregue nada e não via perspectiva de isso acontecer. Na época fui taxado de maluco, de lunático, como duvidar do cara que seria mais tarde um dos 10 mais ricos do mundo segundo uma famosa lista? E cito esse exemplo pelo fato de nossa enorme capacidade de não vermos o caos se aproximando.

Quem acompanha há anos a coluna, já percebeu que ela tem caráter meio profético, não por qualquer poder sobrenatural, mas única e exclusivamente pela análise numérica e situacional de vários acontecimentos e esse fato do déficit previdenciário é apenas um dos indicadores da falta de gestão e planejamento que temos e de nossa perda da capacidade de indignação. Quase nenhuma obra é entregue no prazo ou com sobre preço, mas já nos acostumamos com isso e nem mais reclamamos, também por isso hoje vários Estados não conseguem pagar seu funcionalismo e muitos mais não conseguirão, esta cortina de fumaça dos pobres governadores que pedem renegociações das renegociações que não serão cumpridas e vão empurrando os problemas para frente, ou melhor para depois da próxima eleição.

Novamente faço perguntas simples: Porque não cortam os carros das autoridades? Porque não enxugam as máquinas administrativas e focam nas áreas operacionais que tem maior necessidade? Porque não investem em sistema com publicação on-line de gastos? Porque não obrigam publicar o que tem que ser exposto no Portal da Transparência? São tantos porquês que muitos sabem responder, porém que ninguém tem coragem, nem força política para resolver.

E nesse movimento bandido nas administrações públicas que explode a violência nas cadeias, dominada a anos por tudo que há de mais moderno em corrupção e crime, onde celulares e armas entram e ninguém sabe e ninguém viu! E onde diretores só são afastados, deveriam ser presos condenados por todas as mortes e crimes do período de sua administração e serem penalizados financeiramente dos prejuízos que o Estado tivesse, como ocorre nas empresas onde são feitos seguros de reponsabilidade profissional para este tipo de necessidade quando seu executivos cometem erros, aliás falando em seguros, porque não colocam nas obras públicas o seguro de garantia contratual e de qualidade de serviço, como ocorre em todos os lugares sérios do mundo? Assim as seguradoras para evitar prejuízos, seriam fiscais nas obras para entrega no prazo, com custo dentro do orçado e qualidade e durabilidade, se tivessem feito isso no presídio da capital potiguar, ele não seria construído em cima de dunas o que é um convite para abertura de túneis, mas infelizmente não encaramos de frente essas questões, preferimos já pensar que como diz a canção: “...e fevereiro, tem carnaval!...” 

A conta será paga com muito mais violência, com muito mais prejuízo para os que não podem pagar, enquanto uma parte de uma elite brega ou mais tradicional e sem princípios vai se estatelando nos seus gastos, até o momento que por qualquer descuido do destino sejam afetados por algum criminoso que exponha para eles a difícil realidade desse rascunho de nação. Fiquem na paz e lembrem-se: Pouca conversa e resultado sempre dá certo!