02 de maio, 2016 - Belém

Limites e fronteiras da democratização da tecnologia da informação


Com o aumento do acesso à internet pela população mundial, a tecnologia da informação tem sido vista como um instrumento de democratização e cidadania para uma nova versão de sociedade. Sociedade esta mais atualizada, ativa, sem ter apenas acesso à informação, mas também interagindo com esta discussão, podendo compartilhar, reclamar e dar sua contribuição, e também possuidora de dados, os quais podem ser transformados em informações e assim em conhecimento. Esta inclusão tecnológica, geran uma conectividade com a inclusão social de grupos menos favorecidos, de forma a oportunizar integração com o mundo instantaneamente, é algo que muda o perfil de nossos cidadãos e assim seus interesses e preferências. Porém, uma dúvida fica no ar e precisamos refletir sobre isto: quais os limites de conectividade e informação que todas as pessoas podem ter acesso em uma sociedade? Teriam todos nossos cidadãos capacidade de digerir e refletir de forma adequada sobre qualquer informação? Teríamos o direito de ter apenas algumas pessoas que podem saber de algumas informações e assim tomar decisões por outras? Tudo isto é uma incógnita, pois dizer que alguns são mais capazes e podem decidir pelo resto de uma população, sem compartilhar com eles o que ocorre, é dar soberania a um grupo como excelência sobre outros. E dizer também que todas as pessoas tem capacidade de compreender certas ações, decisões e cenários políticos e de crise em função de suas experiências e formações, é algo ilógico, pois muitos são manipulados e podem não entender um bem comum, que deve ser tomado para garantir resultados maiores a frente, levando a situações as vezes antiéticas.

A divergência

Antes de entrarmos nos conceitos envolvidos, citarei aqui um filme que pode dar uma ideia clara sobre estas decisões sobre quem pode ou não ter tal poder em mãos. O Jogo da Imitação, que descreve uma história verídica que por 50 anos ficou escondida da sociedade e mesmo do governo, conta a história de um pesquisador inglês (matemático) que com a teoria da computação conseguiu desenvolver uma máquina para decodificar um encriptador desenvolvido pela Alemanha, o qual foi usado para esconder suas comunicações realizadas na 2ª guerra mundial. 

Este equipamento alemão se chamava Enigma e a cada dia ele mudava suas encriptações de forma a gerar milhões de possibilidades de combinações. Após dois anos de estudos e tentativas, Turing e sua equipe conseguiram decifrar o Enigma, mas um problema existia. Ninguém sabia que eles possuíam uma máquina escondida com eles, em uma missão secreta do próprio governo. A máquina não servia sozinha, pois os dados de codificação eram inseridos de forma diferente todos os dias, onde a sociedade e nem mesmo o governo sabia que este estudo estava acontecendo, mas quando resolvido, Turing percebeu que não podia revelar seu achado, pois se ele informasse a Marinha britânica de todos os navios, submarinos e ataques que ele tinha encontrado naquele momento, apenas alguns seriam protegidos no mesmo instante e a Alemanha poderia descobrir que tinham achado e decifrado a Enigma.

Sendo assim, eles precisariam deixar que muitos ataques ainda ocorressem, deixando milhares morrerem, até que tivessem capacidade de descobrir o momento exato para ter um ataque perfeito que acabasse com a guerra de uma vez para todas. Fazer algo assim em vez de salvar alguns e ainda poder ter a guerra por muitos mais anos, foi o ponto crítico. Então vem a pergunta: como ter certeza que o feito era o mais adequado? Como ter certeza que os fins justificam os meios? E quem decidiria isto? Os gênios físicos, matemáticos e cientistas do grupo eram Deuses a ponto de serem os responsáveis por esta decisão? Eu estimulo todos a assistirem o filme, pois a reflexão é ótima e adianto, eu concordei com a decisão e a forma, mas entendo o quanto é difícil para uma sociedade, ter pessoas que concordem como eu o fiz. Muitos teriam decisões diferentes e fica difícil compartilhar decisões a certos níveis simbólicos e interpretativos, dado todo o contexto envolvido e não uma solução primária imediata e individualista. Complexo para seres humanos que possuem emoções, relações e fatores inter-relacionados com seus próximos.

Então, vamos passar para os conceitos. A internet e a tal inclusão tecnológica é algo fantástico e necessário para nossa cidadania e crescimento de um grupo, comunidade, região e país. Mas a que nível é a questão primordial, pois nos últimos anos temos assistido a questões de vazamento de informações, como o site WikiLeaks, que trouxe uma forma de pessoas informarem segredos ou acontecimentos que os constrangeram e de certa forma os deixaram desconfortáveis a nível de quererem e precisarem compartilhar isto com outras pessoas. As pessoas que informavam os dados ao WikiLeaks tinham uma conexão segura e sem forma de identificar quem enviou os dados para o site, e o dono do site tinha um grupo de pessoas que organizavam as informações e bombardeava estas para a internet que é o mais rápido e amplo meio de comunicação existente na atualidade, o qual inclui hoje a internet móvel e as comunicações via dados como whatsapp, etc. Em segundos o mundo todo soube de ações erradas feitas pelos Estados Unidos, onde civis foram mortos por erro do exército Americano, decisões tomadas pelos governos, bancos e outros eram compartilhados, onde a dúvida entra no seguinte: Pessoas comuns da sociedade tinham acesso a fatos importantes que geravam crises e sérios problemas políticos em seus países e no mundo, mas também bandidos, traficantes e terroristas tinham este acesso, logo, o outro lado da moeda gerava outros problemas onde tropas foram atacadas e muitos mortos por informações de posicionamento destas pelo site.

Defesas que seriam corretas em certas regiões não tiveram êxito por terem sido denunciadas antecipadamente. E não estou aqui para defender ou acusar, mas as pessoas que denunciaram estavam em cargos de confiança, e mesmo sendo fatores, que dos seus pontos de vista eram errados, podem ter ocorrido por falha humana que poderia ser aumentada quando este o divulgou. Teria este técnico, funcionário ou soldado capacidade de identificar o que foi certo ou errado a ponto de abrir as informações para o mundo? Claro que o errado, todos sabemos, pois matar, roubar e prejudicar outros é errado e pronto, mas o divulgador não teria prejudicado mais ainda o sistema?

Este artigo aqui descrito é um tema que estou propondo para que algum doutorando aceite pesquisar e desenvolver sua tese nesta avaliação simbólica, reflexiva, interpretativa do cenário, ambiente, pessoas, temas e argumentos envolvidos, pois precisamos saber como nos precaver.

Outros fatos ligados à tecnologia estão na atualidade sendo vistos na televisão, onde cito mais dois casos para nossa compreensão. No Brasil, o vice presidente do Facebook na América Latina foi preso por não ter atendido uma ordem da justiça de enviar dados do Whatsapp, aplicativo que foi há pouco tempo adquirido pelo Facebook. Após sua prisão, o Facebook informou que não possuía estes dados, pois eles são encriptados e seguros para os usuários, nunca sendo salvos em nenhum servidor da empresa. Então, porque o Facebook demorou tanto para dar esta resposta? A ordem judicial foi realizada muito tempo antes de sua prisão, mas o Facebook não deu a devida atenção ao caso. De minha reflexão, a informação de não existir estes dados, é a melhor resposta e lógica na qual a justiça não poderia de forma alguma ter acesso a algo que a empresa não possui, porém, também acredito que seja mentira da empresa, pois estes dados não são comercializados pelo facebook indiretamente, mas utilizando de bigdata, a empresa pode possuir uma quantidade enorme de informações que pode gerar mercado para outras ações. O problema é que se os usuários souberem que seus dados são guardados, ninguém mais utilizará o Whatsapp, então, quem pagará pela falência de uma empresa comprada pelo Facebook pelo valor de US$ 21,8 bilhões.

O governo possui soberania sobre ações que devam proteger o estado, mas prejudicar uma empresa que pode falir para atender algo que atenderá a apreensão de dois ou cinco bandidos, não justifica tal ação que será revertida, onde os bandidos mudarão seu processo de comunicação e continuarão livres, enquanto uma empresa milionária vai a falência. Outro caso foi nos Estados Unidos, onde a Apple foi solicitada para desbloquear o iPhone. Já no caso americano, a Apple respondeu imediatamente ao FBI e colocou seus advogados para trabalharem. Se seu produto milionário for destruído com a violação da privacidade de seus clientes, como uma indústria que emprega tantas pessoas na forma direta e indireta ficará? 

Neste cenário, todos estes casos são reflexões sobre o uso da tecnologia e os limites que precisamos ter nesta interação sobre os conteúdos, comunicação e informação que os serviços e dispositivos possuem, pois ainda temos muito a aprender para decidir parâmetros do que devemos fazer ou como devemos processar nossas fronteiras, em função de nossas individualidades, segurança, respeito, privacidade e qualidade de vida, podendo ter uma relação boa para ambos os lados sem maiores prejuízos.