16 de fevereiro, 2016 - Belém

Cidade Sustentável: responsabilidade com a sociedade


Em visita nas Universidades de Bochum e Freiburg na Alemanha, eu tive a oportunidade, no mês de novembro e dezembro de 2015, de conhecer uma realidade que está longe de nossos propósitos no Brasil. A cidade de Freiburg, descrita como uma cidade verde dado seus parâmetros de vivência, e Bochum, que trabalha no contexto da pós-industrialização, demonstram a importância para com a sociedade no contexto da educação e do uso das tecnologias para um ambiente saudável, em que o reuso, compartilhamento, qualidade dos produtos e outras características são base nas decisões de vida de toda uma comunidade. A discussão constante e os trabalhos aplicados às realidades locais com experiências de fora são os pontos culminantes e estimuladores destas cidades. Relação cultural, experiência anterior da população e a atual vivência com o cenário dos refugiados demonstram uma maturidade social extremamente evoluída, da qual ainda se quer possuímos discussões sobre os assuntos.

Sustentabilidade não é somente o verde da árvore

Alguns pontos importantes do aprendizado vivenciado foram construídos em função das seguintes características percebidas: compartilhar o transporte, moradia, áreas comuns, serviços públicos e pessoais; utilizar de forma consciente as fontes locais desde criança (cultura); e trabalhar com a sociedade na construção de novas propostas e áreas públicas para a cidade.

Reuniões realizadas comigo e com o Prof. Mário Vasconcellos nas duas cidades levaram a grandes reflexões que apresentaram percepções e valores individuais, que na realidade são coletivos pela constante discussão e valorização da Universidade dado as necessidades de toda sociedade. Este trabalho leva em conta tanto os fatores e experiências internas do País, como externa de forma globalizada. As palestras que demos sobre nossa realidade brasileira apenas fortaleceram para os estudantes e pesquisadores alemães que seus caminhos foram traçados de forma correta para a melhoria de sua cidade.

Como foco deste projeto financiado pela CAPES, o qual denomina-se UNIBRAL, onde enviamos e recebemos estudantes de graduação para um período de 6 meses de intercâmbio, além de professores por 20 dias para missões de pesquisa, conseguimos concentrar nossas interpretações nos seguintes pontos realizados pela Universidade e apropriados pela sociedade: o fato de compartilharem seus carros, onde algumas pessoas possuem carros e escolhem vizinhos para que um mesmo carro possa ser usado na semana por três famílias diferentes, para casos mais extremos onde o transporte público não pode, dada a necessidade de transportar material pesado ou se deslocar para áreas de acesso dificultado. Isto ocorre pois o transporte público é de alta qualidade, logo, a sociedade não necessariamente precisa de carro para ter que apenas ir para um trabalho e retornar, mas precisa deste para casos extremos como o citado.

Nos restaurantes, quando uma mesa possui 4 lugares e existem 2 pessoas sentadas, outros usuários chegam e perguntam se podem utilizar o espaço da mesa e as outras duas cadeiras, sendo assim compartilhada a mesa. Serviços do bairro e muitos pontos que nós no Brasil precisamos cada um ter o seu produto, espaço e acesso individual, também são compartilhados. Apartamentos modernos são desenvolvidos para que quando os pais queiram, eles possam dividir o apartamento que antes era de 3 quartos e transformar em 3 apartamentos de 1 quarto com saídas individuais. Seus filhos podem morar individualmente ou outras pessoas podem comprar parte deste apartamento para morar e assim não termos espaços perdidos e sem utilização.

Prédios sustentáveis e áreas comuns de bairros novos são desenvolvidos com a sociedade identificando quais serão os novos moradores da área, para que o entretenimento seja adequado aos moradores. Praças, áreas de reuniões e encontros para serem compartilhados são desenvolvidos, como se um bairro fosse um condomínio de moradias. Quando visitamos algumas áreas, ficamos impressionados com os jovens passando por alguma sala e automaticamente desligando a luz, o uso da água, reutilizando matéria prima para reuso desta, etc.

Além de todo este conceito e valor geral de um grupo comunitário desigual, mas com crenças e esforços comuns que fortalecem seus resultados, fica a impressionante vivência da aceitação dos refugiados com manutenção e disponibilização de moradia, trabalho, inserção social e integração nos diversos bairros, pois estes não são colocados em bairros separados, mas misturados em todos os bairros comuns existentes, para se sentirem parte e estarem como uma soma desta sociedade.

Fecho esta experiência com uma dúvida, me perguntando quando teremos algo próximo disto, ou melhor, será que um dia experimentaremos uma vida com possibilidades tão sensíveis às necessidades comuns, em vez de termos apenas a sobrevivência egoísta e individualista em que cada um pega aquilo que lhe serve sem pensar no outro? Eu espero que pela educação consigamos mudar algo, mesmo que devagar, mas para garantir uma vida diferente para nossos netos e bisnetos.