'Devoção à Nossa Senhora de Nazaré continua a mesma', afirma historiador

— Círio de Nazaré sofreu resistências, mas não perdeu a essência

O Círio de Nazaré é uma das maiores procissões católicas do mundo tanto em número de fiéis quanto em romarias. No segundo domingo de outubro, em Belém, milhões de católicos se reúnem para render graças à imagem de Nazaré em uma tradição secular que ganha mais força a cada ano. Mas você sabe como surgiu o círio? E a devoção a Nossa Senhora de Nazaré? Para desvendar esses questionamentos, o ORM News foi conversar com o historiador Geraldo Coelho. O pesquisador é autor do livro 'Uma crônica do Maravilhoso: legenda, tempo e memória no culto da Virgem de Nazaré', lançado em 1998. A publicação narra o começo da devoção mariana no Pará.



Pode-se dizer que o culto à Virgem de Nazaré começou no século XVII no município de Vigia, nordeste paraense, e foi trazido por marinheiros dos açoures (ilhas do Atlântico próximas de Portugal). Em Belém, o culto teve início mesmo no século XVIII, quando o caboclo Plácido José de Souza encontrou em 1.700 a imagem original de Nazaré às margens do igarapé Murutucú, onde hoje é a Basílica Santuário.

Com a devoção crescendo, o primeiro bispo do Pará, Dom Frei Bartolomeu do Pilar, foi até Vigia conhecer o culto trazido de Portugal. Por lá, Nossa Senhora de Nazaré já era bem conhecida. Conhecendo a história de Plácido, o bispo ordenou a construção da Basílica de Nazaré em 1724 para abrigar a santa e aumentar ainda mais o número de fiéis. A construção era pequena e ficou conhecida como uma ermida. Já em 1773, por sua vez, o frei Dom Jão Evangelista colocou a cidade de Belém sob a proteção de Nossa Senhora de Nazaré, pois a devoção já estava consolidada no Pará. Mas o responsável mesmo por 'importar' de Portugal em 1790 os elementos que conhecemos até hoje no Círio de Nazaré foi o governador do Pará na Dom Francisco de Sousa Coutinho. 'Como Dom Francisco era um navegador e conhecia os círios Portugueses, ele percebeu que a devoção a Nossa Senhora só crescia em Belém e resolveu introduzir os elementos por aqui. Mas basicamente a devoção à Nossa Senhora é um culto marítimo português. A definição da palavra círio é vela e é de origem grega. Então, nada mais é do que as procissões que os portugueses já faziam nos séculos 15 e 16 para pedir proteção aos navegadores. Relatos dão conta de que até Vasco da Gama pedia bençãos a Nossa Senhora de Nazaré quando viajava', esclarece o pesquisador.

Dessa forma, segundo Geraldo Coelho, em 8 de setembro de 1792, foi realizado o primeiro Círio de Nazaré pelas ruas de Belém. A primeira procissão saiu da Capela do Palácio do Governo em direção a ermida, onde hoje fica a Basílica Santuário. 'Dom Franscisco trouxe a feira e o arraial que já aconteciam em Portugal para Belém, isso foi o começo do arraial de Nazaré. Ele também estabeleceu essa data em setembro porque eram realizadas as festividadess de Nazaré em Portugal', completa. O pesquisador conta que a imagem original de Nossa Senhora de Nazaré foi conduzida em uma berlinda construída por fieis paraenses. Ela foi colocada sob um carro que conduzia bois e foi puxada pelas ruas da cidade. À epoca Belém não possuia urbanização, e em alguns trechos da passagem da santa o carro ficava atolado por causa da lama e dos buracos. Os romeiros, então, tiveram uma ideia: amarraram uma corda e começaram a puxa o carro. Foi dai que surgiu a corda atrelada à berlinda, um dos grandes símbolos do círio. 'A partir daí a corda se incorporou ao círio e virou um elemento constitutivo e característico dele. Era como se os devotos estivessem puxando Nossa Senhora e ajudando a chegar ao seu destino', explica ele, ressaltando que o círio só começou a ser realizado no segundo domingo de outubro em 1901, por determinação do Bispo Dom Francisco do Rêgo Maia.

Polêmicas

Na história do círio, a devoção nazarena, bem como o catolicismo, sofreram resistências até mesmo por parte da igreja católica. Uma delas foi chamada de 'Questão Nazarena' pelo pesquisador Geraldo Coelho. A polêmica começou quando o Bispo Dom Macedo Costa tentou fazer do círio uma procissão ao estilo romano em 1880 e tentou afastar do corpo da procissão os religiosos. A reação veio na forma da realização dos chamados 'Círios Civis', quando a romaria não contou mais com a presença dos sacerdotes da época e os romeiros tomaram a frente do mesmo. Entre os anos de 1926 e 1931, o círio passou por outro momento conturbado. O então bispo do Pará Dom Irineu Joffily mandou retirar da procissão a corda que conduzia a berlinda e instituiu cânticos à maneira do catolicismo romano. 'A opinião pública fez uma força tão grande contra essa ações que foi preciso a intervenção de Magalhães Barata para resolver a questão. O Interventor do Estado forçou Dom Irineu a aceitar a forma tradicional do círio e o problema foi resolvido', completa Coelho.

Ainda de acordo com o pesquisador, a forma como foi instituído o Círio de Nazaré em Belém pelo governador Sousa Coutinho representa uma intervenção política na história do catolicismo devocional. 'Desde que a devoção foi instalada em Belém, a relação dos devotos com Nossa Senhora era direta, sem mediações, mesmo a da igreja católica. E ele trouxe isso de Portugal. Foi algo novo, mas imposto aos fiéis', aponta.

Polêmicas à parte, o Círio de Nazaré, segundo o pesquisador, atravessou os séculos e representa um dos grande símbolos do catolicismo atual.'Hoje o círio é uma manifestação do catolicismo popular, a exemplo de Portugal com elementos como o arraial, os fogos, as bebidas...É um evento cultural que reúne não só católicos e incorpora todos à festa', explica. Geraldo Coelho acredita que o círio sofreu algumas mudanças ao longo dos anos, mas não perdeu a essência. 'Claro que o Círio não é o mesmo, sofreu mudanças que a dinâmica cultural impôs como a realização de romarias, homenagens, entre outros. Mas podemos dizer que os emblemas culturais como a imagem da santa, a berlinda, os milagres, os devotos na corda, continuam os mesmos. A essência do catolicismo devocional não muda: é a relação do devoto com a santa!', finaliza.